sábado, 14 de outubro de 2017

Acordo entre Hamas e Al Fatah devolve o controle político da Faixa de Gaza à Autoridade Nacional Palestina.


Hamas aceita devolver à Autoridade Nacional Palestina, do presidente Mahmoud Abbas, o controle sobre a Faixa de Gaza, colocando fim a dez anos de hostilidades. Negociações se voltam agora para governo de unidade.Após uma década de hostilidades, um acordo de reconciliação mediado pelo Egito foi assinado nesta quinta-feira (12/10) por representantes dos movimentos palestinos rivais Fatah e Hamas, devolvendo à Autoridade Nacional Palestina (ANP) o controle administrativo sobre a Faixa de Gaza.


O representante do Fatah, Azzam al-Ahmed, e o líder do Hamas, Saleh al-Arouri, afirmaram que o primeiro passo será reforçar o governo da ANP, com base na Cisjordânia, que deverá retomar o controle total sobre a Faixa de Gaza até o dia 1º de dezembro.



Mahmoud Abbas, presidente da ANP, disse que este foi um "acordo final para pôr fim às divisões" entre as duas partes. Restam, porém, muitos detalhes a serem resolvidos.



"O foco das negociações estava em impulsionar o governo de consenso nacional para que trabalhe com todas as suas competências, tanto na Cisjordânia [governada pelo Fatah] como em Gaza", disse Saleh al-Arouri. Azzam al-Ahmed afirmou ter sido alcançado um "acordo completo" para que um governo de unidade nacional assuma sua autoridade na região.



Fim das sanções 



O Hamas, vencedor das eleições legislativas em 2006, foi privado da sua vitória devido à pressão internacional e expulsou a Autoridade Palestina e as forças de segurança da Faixa de Gaza.



O movimento islamista – considerado um grupo terrorista pelos Estados Unidos – tomou o controle sobre Gaza em 2007, num episódio que quase resultou numa guerra civil na região. Desde então, diversos esforços de reconciliação fracassaram.



Em setembro, o Hamas concordou em ceder o poder sobre Gaza à ANP, ainda que o destino de suas forças militares no território tenha sido um obstáculo para as negociações. O movimento islamista se envolveu em três guerras contra Israel desde 2008.



As negociações se voltam agora para a formação de um governo de unidade. O Fatah confirmou que Abbas planeja para breve uma viagem à Faixa de Gaza – sua primeira visita em dez anos ao território – para consolidar a reconciliação.



Um dos pontos fundamentais das negociações foram as sanções impostas pelo presidente da ANP à região, que incluíam a redução do fornecimento de energia elétrica ao território, o que deixava os moradores com apenas algumas horas diárias de eletricidade. Segundo a liderança do Fatah em Gaza, as medidas restritivas deverão ser removidas em breve. 



Fronteira de Rafah



O bloqueio à Faixa de Gaza resultou numa deterioração das condições humanitárias no território. Temendo o aprofundamento nos cortes de energia e um isolamento político e financeiro após o início da crise entre o Catar – sua principal fonte de recursos – e as nações do Golfo, como a Arábia Saudita, o Hamas pediu ajuda ao Egito para viabilizar a reabertura da fronteira em Rafah, considerada fundamental para o reforço da enfraquecida economia de Gaza.



O Egito se comprometeu a fornecer combustível a Gaza para a geração de energia. Em contrapartida, Cairo pressionou o Hamas para que levasse adiante o processo de reconciliação. O acordo assinado pelas facções rivais estabelece que a guarda presidencial de Abbas assumirá o controle da fronteira de Rafah no dia 1º de novembro.
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Liderança dos dois grupos selam acordo.

O Fatah afirma que o local deverá supervisionado pela Agência Europeia de Fronteiras (Eubam). Para que isso ocorra, a decisão deverá ser tomada em conjunto pela ANP e pelo governo de Israel.



Os dois grupos rivais esperam que o acordo faça com que Israel e Egito removam as restrições na fronteira. Cerca de 3 mil membros das forças de segurança do Fatah serão enviados ao território. O Hamas, porém, ainda será o maior grupo armado no local, com cerca de 25 mil militantes.



A reconciliação poderá dar novo impulso às tentativas de Abbas de reavivar as conversações sobre a criação de um Estado palestino no território ocupado por Israel.

Fonte: Jornal O Povo

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Como seria o futebol da Catalunha em caso de independência?

Caso haja mesmo a separação da Catalunha, a Espanha sofrerá com muitos problemas econômicos e políticos, além, é claro, de ter seu futebol afetado

Após o Parlamento da Catalunha aprovar a lei que garante o direito da região a realizar um plebiscito para se separar da Espanha , um clima de tensão foi instaurado no país. A comunidade autônoma ignorou todas as repreensões do governo espanhol e decidirá seu futuro nas urnas, no dia 1º de outubro.

Catalunha tem pouco mais de 7,5 milhões de habitantes, e sua independência causaria muitos problemas econômicos e políticos para a Espanha, já que a região responde por 19% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, principalmente nos setores de exportação, indústria e turismo. No entanto, uma eventual ruptura catalã afetaria também o futebol espanhol. 

O Barcelona no futebol catalão

A região da Catalunha tem como seu principal clube o Barcelona, que, por ser uma das potências do futebol mundial, é muito importante comercialmente para o Campeonato Espanhol e a Federação Espanhola. 
Caso fosse criado um Campeonato Catalão, o Barcelona poderia perder força, principalmente por conta do baixo nível de seus possíveis adversários. Além disso, o time dificilmente conseguiria manter o mesmo patamar de investimentos caso atuasse apenas contra rivais regionais.
Mas o clube blaugrana não seria o único prejudicado. A Uefa também só tem a perder com uma eventual secessão, já que o novo país precisaria se filiar à entidade, e o Barça, esperar algum tempo para voltar à Liga dos Campeões da Europa, que sofreria queda de audiência e de interesse com a ausência de uma de suas estrelas.
Uma das opções para o Barcelona evitar tal cenário seria imitar o Swansea, equipe do País de Gales que, devido à fragilidade da liga nacional, disputa o Campeonato Inglês. No entanto, é incerto como reagiria a torcida barcelonista caso o clube abandonasse sua região.

O Campeonato da Catalunha

Atualmente, apenas três clubes da Catalunha disputam a elite do futebol espanhol: Barcelona, Espanyol e Girona. Já na segunda divisão, estão Gimnàstic de Tarragona e Reus Deportiu.
O restante dos times pertence a divisões inferiores, principalmente a terceira e a quarta. Para sobreviverem em um novo torneio nacional, as pequenas equipes catalãs precisariam de investimentos, cenário que poderia levar ao renascimento de agremiações históricas, como o Club Esportiu Jupiter, hoje amador, e o Català FC, que foi o maior rival do Barça no início do século 20.

As seleções da Espanha e da Catalunha

Sem os jogadores catalães, a seleção da Espanha perderia peças importantes, como Jordi Alba, Gerard Piqué, Sergio Busquets e Martín Montoya, mas teria condições de repor parte desses nomes com jovens de Real Madrid, Atlético de Madri e Sevilla, por exemplo. Já a base do time catalão dependeria de Barcelona e Espanyol.
A seleção da Catalunha já existe, mas não disputa torneios oficiais. Seu maior artilheiro, Sergio García, ídolo do Espanyol, tem oito gols pela equipe.

Opinião dos jogadores

O técnico do Manchester City, Pep Guardiola, treinou o Barcelona e é um defensor entusiasmado do plebiscito, já tendo participado de diversas manifestações em defesa da autodeterminação catalã.
"Os cidadãos da Catalunha demonstraram mais uma vez sua civilização. Nestas situações, não é fácil se controlar, e eles o fizeram. Estamos em boas mãos, as pessoas que nos conduzem farão o que a gente pede", disse recentemente.
O zagueiro Gerard Piqué, do Barcelona, é outro a favor da separação, apoiando a causa nas redes sociais. "A partir de hoje e até domingo, vamos nos expressar pacificamente. Não vamos lhes dar razões. Isso é o que eles querem. Cantemos bem alto e forte", escreveu no Twitter.
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Por fim, o técnico da Espanha, Julen Lopetegui, quer a permanência do zagueiro do Barcelona na seleção espanhola mesmo casa haja uma separação da Catalunha. "Ele estará aqui, conosco, e tenho certeza que com o mesmo comprometimento e a vontade de sempre, porque sei que ele dá a vida pelo país. Sobre questões que não dizem respeito ao campo, não posso opinar", concluiu.
Rival de Piqué em campo e fora dele, Sergio Ramos, do Real Madrid, ironizou a mensagem. "O tuíte de Piqué não é o mais indicado se ele quer que não o vaiem. Talvez não seja a melhor mensagem para o grupo, mas cada um é livre para dizer o que pensa", disse.

Fonte: Esporte IG

domingo, 10 de setembro de 2017

Por que é mais fácil ser neonazista nos EUA do que na Alemanha?

No último mês, enquanto centenas de supremacistas brancos agitavam símbolos nazistas e gritavam palavras de ordem contra judeus e outras minorias em Charlottesville (Virgínia, EUA), um cidadão americano era agredido e preso por fazer a polêmica saudação de "Heil Hitler" em Dresden, na Alemanha.
Os fatos mostram como os dois países divergem no grau de tolerância ao uso de símbolos nazistas.
Na Alemanha, a lei prevê punição de até três anos de prisão para quem usar insígnias relacionadas ao Terceiro Reich ou fizer apologia do nazismo.
Nos Estados Unidos, o uso de símbolos do nazismo, o "discurso de ódio" e a existência de grupos de perfil neonazista são práticas legais, amparadas no direito à livre expressão garantido pela Constituição.
Já no Brasil, a lei 7.716/89 determina prisão de dois a cinco anos para quem "fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada, para fins de divulgação do nazismo".
Países onde é proibido usar símbolos nazistas
Alemanha
Áustria
Brasil
República Checa
Eslováquia
Suécia
Suiça
Dados do Southern Poverty Law Center (SPLC), uma ONG americana de defesa dos direitos civis, indicam que existem nos EUA mais de 900 "grupos de ódio" que reivindicam ideias inspiradas no nazismo. Apenas na Califórnia, há mais 70, e na Flórida, mais de 60.
Para grande parte deles, o livro Minha Luta, no qual Hitler expressa suas ideias que culminaram com a criação do partido nazista, é visto como uma espécie de bíblia ideológica. Eles assimilaram ideias supremacistas de Hitler, assim como os símbolos associados ao nazismo e outras correntes fascistas.

ManifestaçãoDireito de imagemREUTERS
Image captionCentenas de supremacistas brancos marcharam com tochas e símbolos nazistas na sexta-feira em Charlottesville enquanto entoavam dizeres contra judeus

O que talvez cause espanto em outras partes do mundo é que esses grupos não são clandestinos; operam livremente e manifestam suas opinões e visões publicamente, como qualquer outra agremiação política. Como se viu em Charlottesville, eles têm o direito de marchar e gritar slogans racistas ou palavras de ordem pedindo a expulsão de negros, imigrantes, homossexuais e judeus.

De história e de leis

Especialistas consultados pela BBC Mundo explicam que as diferenças entre Alemanha e EUA no trato dado a grupos neonazistas vem da história de cada um, das leis e de sua interpretação.
Peter Kern, professor de direito penal da Universidade de Colônia, na Alemanha, explica à BBC Mundo que em seu país, a utilização de insígnias nazistas está estritamente proibida pelo Strafgesetzbuch, o código penal, desde o final da Segunda Guerra Mundial.
"O artigo 86º proíbe o uso de símbolos de organizações inconstitucionais, sejam bandeiras, emblemas, uniformes, insígnias ou modos de saudação, fora dos contextos da arte, ciência, pesquisa ou do ensino".
"Ou seja, um museu pode mostrar uma bandeira com uma suástica, mas uma pessoa não pode usá-la dentro do território alemão", pontua.

MuseuDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionO uso de símbolos nazistas na Alemanha está permitido para fins educativos, como em museus

Segundo Kern, as profundas marcas deixadas pelo nazismo - que levou o país ao maior conflito militar da história - na consciência coletiva e o temor - e perigo - de que ele retorne levaram a essa legislação, que também coloca na ilegalidade qualquer grupo que siga a ideologia de Hitler e seus seguidores.
No entanto, o pesquisador esclarece que esses grupos escapam da alçada da Justiça evitando termos específicos e se apresentando como grupos "de extrema-direita".

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Image captionGrupos de extrema-direita na Alemanha buscam formas de maquear a alusão a Hitler, como na camiseta preta. No Twitter, a usuária afirma: "isto é, amigos, o pós-modernismo nazista"

Atualmente, as caras mais visíveis dessas correntes são o Partido Nacional Democrático, que no início deste ano esteve a ponto de ser proibido, e uma dissidência dele chamada Alternativa para a Alemanha.
Nos Estados Unidos, por sua vez, o uso de símbolos ou a propagação do ideário nazista estão amparados no direito à livre expressão, consagrado pela Primeira Emenda (1791) da Constituição.

saudação nazistaDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionNos EUA, realizar a saudação nazista é ato amparado pela Constituição

Darren L. Hutchinson, professor de Direito Constitucional da Universidade da Flórida (EUA), explica à BBC Mundo que isto se aplica não apenas ao discurso oral ou escrito, mas também protege o "discurso simbólico", como exibir uma bandeira, fazer saudações nazistas ou portar qualquer elemento gráfico.
"A Primeira Emenda estabelece que o governo dos Estados Unidos não pode discriminar com base num ponto de vista determinado na hora de impor restrições à liberdade de expressão", explica.
"Se um Estado, por exemplo, decide restringir em seu território o uso de símbolos nazistas devido a sua mensagem, isto poderia constituir uma restrição à liberdade de expressão e provavelmente estaria violando a Constituição", acrescenta.
Um exemplo é um caso ocorrido em 1978, quando a Suprema Corte de Illinois decretou ser "constitucional" que um grupo neonazista usasse bandeiras com a suástica para protestar em Skokie, um bairro de Chicago habitado em sua maioria por sobreviventes do Holocausto.
Embora a marcha nunca tenha ocorrido, a sentença criou um precedente para o uso aberto de símbolos nazistas nos Estados Unidos e para uma maior abertura na associação a grupos radicais de extrema-direita, considera Hutchinson.

HomemDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionUsar símbolos nazistas é um direito amparado pela Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos

Por isso, o uso de iconografia ou a aberta militância em organizações neonazistas nos Estados Unidos pode ser mais visível que em outras nações.
"Ao estar amparado pela lei, é mais comum encontrar grupos e símbolos neonazistas nos Estados Unidos que qualquer outro lugar", diz à BBC Mundo Brenda Castañeda, uma promotora de Charlottesville que trabalha como diretora do Legal Aid Justice Center, uma ONG de defesa de direitos civis na Virgínia. "O grande perigo é que por trás destes símbolos de ódio, pode-se ocultar também a violência, como nos acontecimentos do fim de semana."
No entanto, ela destaca que a Primeira Emenda também estabelece as bases e os limites para castigar os atos de violência que possam ser provocados por estes "discursos de ódio".

O limites do 'ódio'

Mas se na Alemanha o código penal estipula como delito o uso de material inspirado na ideologia nazista ou a associação em grupos que se declarem abertamente sucessores do Führer, nos Estados Unidos, os parâmetros que estabelecem quando um "discurso de ódio" transgride a lei são nebulosos.
"O direito constitucional americano desaconselha as 'restrições prévias', que são aquelas que proíbem ações com base no que poderia ocorrer. Isto explica por que é inconstitucional vetar a publicação de certo livros, como Minha Luta, ou proibir uma manifestação, como a ocorrida no fim de semana, com base nos efeitos que poderiam ter", explica Darren Hutchinson.
O acadêmico esclarece que há limitadas exceções para estes casos e elas estão associadas a discursos que incitem a violência ou que possam ser catalogados como difamação, calúnia, obscenidade ou incitação à anarquia.

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Image captionMembros do Movimento Nacional Socialista, um dos maiores grupos neonazistas dos Estados Unidos

Sua margem de aplicação, explica, é complicada, porque às vezes não é fácil justificar legalmente que um discurso se insere em algum destes parâmetros, já que estes podem ser subjetivos.
"É difícil prever, por exemplo, se um orador intencionalmente incitará a violência durante um discurso. Do mesmo modo, é muito difícil justificar a proibição de um discurso político ou de matérias vinculadas ao interesse público, como são os temas raça e política. Então, para poder restringir o direito à livre expressão, as autoridades precisam ter uma razão convincente e isto entra em um limbo legal de uma interpretação muito ampla", indicou.
Entretanto, de acordo com a promotora Casteñeda, o reconhecimento do direito à livre expressão, que permite passeatas como as de Charlottesville, é também uma forma de limitar a margem de interferência do governo nas liberdades civis.
"Quando os pais da nação estabeleceram a Primeira Emenda, fizeram isto porque consideraram uma verdade prática: as autoridades nem sempre exercem o poder da censura de maneira responsável. Em dado momento, quando o discurso subverte a autoridade estatal, ele poderia ser considerado ilegítimo. É por isso que defendemos a livre expressão como uma liberdade civil", sustenta.

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Image captionOrganizações de direitos civis nos EUA consideram legítimo o direito de grupos neonazistas de se manifestar

A Associação Americana dos Direitos Civis (ACLU, na sigla em inglês), sempre esteve entre as organizações que defenderam o direito de grupos neonazistas ou de extrema direita - como o Ku Klux Klan ou a Vanguarda América - se manifestarem.
"Fazemos isto porque acreditamos no princípio de que, uma vez que os direitos da pessoa sejam violados, todos os demais estão sob risco. A liberdade de expressão não pertence apenas àqueles com quem estamos de acordo, e a Primeira Emenda não protege apenas os discursos politicamente corretos", afirma Chris Hampton, especialista da ACLU.
"De fato, é nestes casos difíceis que nosso compromisso com a Primeira Emenda é mais importante. Como disse um juiz federal, tolerar os discursos de ódio é a melhor proteção que temos neste país contra qualquer regime de tipo nazista", afirma.

Direito de imagem

Mas para Casteñeda, a principal razão para preocupação neste momento não são as leis e sua aplicação, mas para as razões que permitiram eventos como o de Charlottesville.
"Acredito que estes atos foram alimentados pelo fanatismo e pela retórica racista que floresceram nos últimos meses: a proibição de entrada de muçulmanos à nossa nação, a iniciativa de um muro fronteiriço, os políticos chamando imigrantes de estupradores... Acredito que este tipo de retórica que demoniza grandes grupos de pessoas é a que que traz estas consequências".
"No final de semana foi Charlottesville. Amanhã poderia ser qualquer outra cidade dos Estados Unidos", adverte.
Fonte: BBC Brasil.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Canudos: a cidade do fim do mundo.

O trovão soa na colina não muito distante do sítio, e Julio Redondo (camisa suja de terra, facão pendurado no cinto) levanta a cabeça espantado dentro de casa. Diz só uma palavra:
– Chuva.
Fala com emoção e alívio. Com a entonação feliz de quem espera há muito por alguém que enfim aparece.
Yamilson Mendes, um guia turístico de 35 anos (boné de ciclista, óculos de sol, bermuda), olha para o velho pastor de 85, é contagiado com seu otimismo e acrescenta duas palavras para confirmar a boa notícia:
– Chuva, sim.
A cidade de Canudos fica no interior vazio do Nordeste do Brasil, no meio desta região arisca e dura, o sertão, de uma vegetação única e singularmente bonita, a caatinga, que aguenta por 11 meses a mordida de um sol incandescente. Mas Canudos é famosa por outra coisa: em 1896, um batalhão de milhares de camponeses miseráveis, assolados por esta mesma seca, ajudados por grupos de bandoleiros e capatazes bravos de gado acostumados a lutar e a matar, ergueram-se em armas e enfrentaram a jovem república brasileira de então nesta cidade fora de todos os mapas. Liderados por Antônio Conselheiro, para alguns um fanático paranoico e retrógrado, para outros um santo milagreiro iluminado pela graça divina. O Conselheiro peregrinou durante anos por estradinhas sob esse mesmo sol torturante, de povoado em povoado, consertando igrejas e muros de cemitérios, antes de se negar a obedecer a qualquer autoridade, proibir o dinheiro, fundar a nova Canudos e arrastar para a morte a maioria de seus seguidores, que acreditaram cegamente nele até o último dia. Canudos rechaçou inacreditavelmente três expedições militares e só sucumbiu em outubro de 1897 à quarta, composta por um exército de mais de 4.000 homens, com canhões e metralhadoras, vindos de todos os Estados do Brasil. Tudo isso é contado num português primoroso por Euclides da Cunha, que viajou com essa quarta expedição, em Os Sertões, obra essencial da literatura brasileira. E é narrado magistralmente por Mario Vargas Llosa em A Guerra do Fim do Mundo.
Também o recordam, por meio das histórias de seus avós, os descendentes dos poucos que conseguiram fugir antes que o último cerco militar atingisse a cidade ou que sobreviveram à última batalha. Muitos deles – não todos – continuam a idolatrar o Conselheiro, como fizeram seus tataravós há mais de um século, transformando o tempo e a modernidade numa miragem.
“Meu tio, Chiquinho, lutou ao lado de Antônio Conselheiro. Quando eu era criança, enquanto balançávamos na rede, me cantava canções da Canudos velha, do tempo dos soldados. Eu lhe perguntava: ‘Matou muitos com o facão?’. E ele me respondia: ‘Uns poucos’. Mas não sei se era verdade. E me falava do Conselheiro, de como era bom, que fazia milagres e penitências, que as pessoas estavam contentes ao seu lado”. Maria Antônia Butão, Dona Maria, agora tem 77 anos e olha também, com um sorriso ausente, as nuvens que redemoinham em volta da sua casa nesta tarde estranha de vento e chuva. Vive numa chácara minúscula com cabras e um poço quase seco muito perto do campo de batalha de Canudos, das primeiras trincheiras, onde não é raro até hoje encontrar pentes de balas, botões de fardas e até esqueletos de soldados. Ao redor da casa se estende o mato baixo, salpicado de cactos como arame e de árvores peladas, cinzentas e esqueléticas da caatinga. Olhando para as nuvens também, sentado no chão, apoiado na parede da casa, há um homem de 45 anos. É filho de Dona Maria. Uma paralisia lhe vem inutilizando aos poucos as pernas há anos, sem que nenhum médico da região atine com a doença. Simplesmente as coisas são assim. Agora se arrasta ou a mãe o leva num piscar de olhos de fora para dentro da casa, de dentro para fora. Da velha Canudos não resta nada. Foi reduzida a cinzas depois da guerra. Os sobreviventes – os avós de Dona Maria, de Dona Durú e outros tantos – regressaram meses depois e ergueram uma nova cidade sobre os alicerces da anterior. Mas no início dos anos 50 o Governo brasileiro construiu uma represa que a cobriu por inteiro. A nova Canudos foi edificada de novo, a vários quilômetros de distância, à margem do lago. Hoje é uma cidade de mais de 15.000 habitantes, com casas de alvenaria habitadas por pessoas amáveis, com uma avenida asfaltada, uma feira às sextas, uma minipraia com quiosque, ruas de terra e um banco sem dinheiro depois que os encarregados, fartos, decidiram retirar os fundos há um ano e meio, depois de sofrer quatro ataques quase seguidos de quadrilhas de ladrões vindas de fora. Yamilson Mendes, o guia turístico, bisneto de uma sobrevivente da guerra, está convencido de que o Governo construiu a represa sem pedir permissão à população para, entre outras coisas, afundar a cidade velha e sua memória nas águas do lago. “Nem o fogo nem a água conseguiram apagar nossa história. Minha bisavó, que visitou o cemitério pouco antes de ficar submerso para sempre, dizia que seus mortos iam morrer duas vezes.”O fotógrafo fica com Dona Maria para a foto um pouco mais tarde. Enquanto isso, ela sugere, seria bom falar com uma amiga sua do povoado: Dona Durú. De 81 anos, Júlia Maria dos Santos, Dona Durú, foi professora leiga (sem diploma) durante metade da vida, ensinando as crianças e ler e escrever. Seu avô paterno também conheceu Antônio Conselheiro. E o pai desse avô. E duas bisavós. Ela se lembra bem das histórias da família: “Um dia, meu avô e meu bisavô saíram de Canudos para conseguir comida. Mas quando tentaram voltar a entrar, o cerco tinha se completado. Minhas bisavós ficaram dentro. E quando tudo acabou, os soldados as levaram para a Bahia. Uma puseram para cuidar dos filhos de uns senhores. A outra, para trabalhar no jardim. Mas poucos meses depois lhes perguntaram se queriam voltar para Canudos, mesmo estando destruída e queimada. Responderam que sim, porque sabiam que seus maridos estavam por aqui. E os encontraram.” Dona Durú se levanta para buscar numa cômoda uma foto de sua bisavó. Reclama. Não pode ficar de pé muito tempo. O vírus chikungunya, um dos transmitidos pelo mosquito responsável também pela zika e pela dengue, rói-lhe faz tempo as articulações dos joelhos. “Estas pernas já estão gastas”, resume. Depois acrescenta: “Ali, em Canudos, com o Conselheiro, a vida era boa, tudo era união, todo mundo era feliz, não havia brigas, não havia prostituição”. Dona Durú reproduz em 2017 em uma frase apenas o mesmo relato idealizado do paraíso já feito com estupefação por Euclides da Cunha em seu tempo, descrito por Vargas Llosa em seu romance; a mesma ideia quase mística que levou tantas pessoas dos quatro cantos do sertão a se encerrar em Canudos para defender o Conselheiro e seu mundo.
“Nem o fogo nem a água conseguiram apagar nossa história. Minha bisavó, que visitou o cemitério pouco antes de ficar submerso para sempre, dizia que seus mortos iam morrer duas vezes”
Mas a represa trouxe água abundante o ano inteiro para uma parte da população. Só uma parte: vários milhares de pessoas, como Dona Maria e Julio Redondo, o pastor de cabras, vivem em chácaras isoladas que dependem de poços artesanais quase sempre agônicos e, desde que foi instaurado o sistema no Governo Lula, dos carros-pipa mantidos pelo Exército, que passam uma vez por mês e que, apesar de tudo, são insuficientes. Também veio com a represa  –junto com a estrada que chegou há uma dezena de anos – uma plantação rentável e organizada de bananeiras, que constitui a principal fonte de riqueza da comarca, junto com a tradicional venda de carne de cabra. Há pizzarias no centro da cidade. Mas há também mulheres que gastam o domingo de manhã caminhando pelo acostamento da estrada por vários quilômetros para recolher (e carregar na cabeça na volta) as mangas maduras que caem na área das bananeiras e são necessárias em casa.
Yamilson, o guia, leitor de Vargas Llosa, não se convence totalmente sobre a localização da represa. Nesta tarde, enquanto chove, contempla o lago – e imagina a cidade submersa nele – de um mirante situado numa colina na periferia da cidade, perto de uma grande estátua do Conselheiro erguida há anos e com vista para todo o vale. Não é a única homenagem nesta terra ao personagem que Euclides da Cunha, entre muitos outros, tachou de lunático. O homem que no Rio e na Bahia foi injuriado e descrito como um inimigo declarado do Brasil é enaltecido na terra em que morreu. A guerra de Canudos é resumida muitas vezes como o confronto entre a religiosidade cega em busca de milagres, personificada por este santarrão, de quem vivia com a desgraça nas costas e os que quiseram impor o progresso e a racionalidade do novo século à base dos tiros de canhão.
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Na área há escolas batizadas com o nome de Antônio Conselheiro. E romarias anuais realizadas em sua memória. No museu local dedicado à guerra de Canudos existe outra estátua dele, e a seu pé há uma placa que lista e chama de heróis os principais defensores da cidade frente ao Exército regular da República, incluindo os bandoleiros e criminosos que decidiram pôr suas armas e sua destreza assassina a serviço de seu caudilho, louco ou não. Não muito longe dali, uma antiga capela conserva o crucifixo restaurado de madeira, de mais de três metros de altura, que o Conselheiro mandou erguer em 1896 e que até a tomada da cidade esteve na frente da principal igreja de Canudos. Ao lado da cruz alguém deixou pés esculpidos na madeira: o ex-voto de uma promessa cumprida por um santo a que esse alguém pediu que lhe curasse uma doença na perna.
Em outra chácara afastada, Solange, a rezadeira, de 75 anos, se dedica a aliviar no jardim os males de seus pacientes à base de calma, orações e toques das mãos. Nesta tarde atende a uma mulher de cerca de 30 anos cujos olhos doem. Num quarto guarda as estatuetas dos santos católicos herdadas de sua mãe e de sua avó, também rezadeiras. Num armário com chave do dormitório coleciona duas centenas de livros sobre espiritismo.
Bastará, como na previsão de Dona Maria, que siga caindo esta chuva que todos comentam nesta tarde para que tudo reverdeje, para que a natureza escondida exploda.
– Canudos é triste e há por aqui muitas pessoas mortas atuando. Às vezes incomodam, mas é preciso saber tratar com elas. Eu poderia ser milionária, mas não sou materialista. Gosto de viver aqui, mas se um dia me disserem para ir embora, irei, sem olhar para trás, como a tartaruga.
Depois, como tantas outras pessoas desta cidade, especialmente mulheres, conta a desgraça que a aflige:
– Não sei por que meu filho se suicidou. Por que foi para São Paulo e se matou lá. Ainda me pergunto.
Dona Maria se aprontou para sua foto. Prevê, enquanto sorri, que se chover um pouco mais em poucos dias o deserto imenso avistado da colina de sua casa florescerá. A selva baixa e metalizada, os galhos espinhentos dos arbustos e as árvores anãs que compõem a caatinga parecem mortos, torrados por um sol de mais de 300 dias. Mas chegando perto e partindo um ramo qualquer se descobre que estão só dormindo. Pode servir como metáfora desta terra e desta gente. Bastará, como na previsão de Dona Maria, que siga caindo esta chuva que todos comentam nesta tarde para que tudo reverdeje, para que a natureza escondida exploda
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Fonte; El País