quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Panteras Negras : O grupo que desafiou o racismo e o Estado no país mais poderoso do mundo.

“Eles são a maior ameaça para a segurança interna do país”, sentenciou John Edgar Hoover, o lendário chefe do FBI, durante reunião na qual declarou guerra aberta ao partido de jovens afro-americanos que, no final dos anos 1960, ousava promover motins e enfrentar a polícia.
Os Panteras Negras brotavam como cogumelos nas principais cidades norte-americanas. Rapidamente viravam o símbolo e a direção de quem não aceitava mais oferecer a outra face perante à agressividade das forças racistas.
As leis segregacionistas já estavam abolidas desde 1964, mas a brutalidade repressiva contra os bairros negros e a situação de pobreza não se alteravam. Os grandes centros urbanos do norte e da costa oeste, para onde migravam os que fugiam do apartheid sulista, tinham se transformado em panelas de pressão. Levantes frequentes agitavam as cidades e a imaginação.
Washington State Archives
Panteras Negras na assembleia estadual em Sacramento, Califórnia, protestam contra projeto de lei para proibir porte de armas.

Quando moradores de Watts, distrito na periferia de Los Angeles, se sublevaram contra a prisão arbitrária de um vizinho, em agosto de 1965, abria-se um novo ciclo histórico. Entre os dias 11 e 15, o chão ficou tingido pelo sangue de 34 mortes e mais de mil feridos. Quase 3,5 mil presos e mais de 40 milhões de dólares em danos materiais foram contabilizados.
Nos três anos seguintes, a cena se repetiu em muitas outras localidades. Os Estados Unidos pareciam caminhar rumo a uma insurreição.
Os encarregados em manter a lei e a ordem perdiam o sono. Estava aparentemente em perigo o sistema que juraram defender. Ao lado das multidões que marchavam contra a Guerra do Vietnã, a mobilização dos guetos negros sacudia um mundo marcado por regras e hábitos construídos no encontro entre imperialismo e escravidão.
Era esse o clima, em outubro de 1966, no dia 15, quando dois estudantes do Merritt College, em Oakland, cidade vizinha a São Francisco, na ensolarada Califórnia, fundaram o Partido Pantera Negra para a Autodefesa.
Huey P. Newton e Bobby Seale recrutaram mais quatro colaboradores e formaram o núcleo inicial da organização. Também decidiram instituir um uniforme: camisas azuis, calças e boinas pretas, casacos de couro.
No funeral de Bobby Huttons, Marlon Brando fala sobre os Panteras Negras.

Tinham mais simpatia pelas ideias de Malcolm X, assassinado em maio do ano anterior, do que pelo pensamento de Martin Luther King, mortalmente baleado dali a dois anos.
Sentiam-se atraídos por objetivos nacionalistas e de autodeterminação, a compreensão de que o povo negro estava sob jugo colonial desde que escravos africanos foram capturados e transportados contra a vontade.
Flertavam com possibilidades separatistas, entortando o nariz para a narrativa integracionista que predominava nos grupos dominantes da campanha contra a segregação.
Acima de tudo, consideravam inaceitável a estratégia de resistência passiva, não violenta, apregoada por Luther King, com quem costuravam acordos pontuais, mas tendendo a enxergá-lo como um anexo do sistema que sonhavam demolir.
Partiam do pressuposto que a falta de reação, cedo ou tarde, afetaria o ânimo e a capacidade de mobilização. A resistência ativa, por outro lado, poderia elevar a autoestima e intimidar os inimigos de sua causa.
Nas Olimpíadas de 1968, no México, Tommie Smith e John Carlos erguem o punho durante hino nacional dos EUA (Foto: WikiCommons)
Nas Olimpíadas de 1968, no México, Tommie Smith e John Carlos erguem o punho durante hino nacional dos EUA (Foto: WikiCommons)Viam-se, em certa medida, como herdeiros de Malcolm X, ainda que não partilhassem seus pendores islâmicos. O que definitivamente os entusiasmava era o propósito de ser a ponta de lança das comunidades negras. Seus organizadores e protetores armados frente aos atropelos do Estado e de agremiações racistas como a Ku Klux Klan.

Contavam, a seu favor, com uma lei californiana que permitia a todos os cidadãos carregarem suas próprias armas. De rifles no ombro e revólveres em punho, funcionavam como tropa de choque contra a ação policial, protegendo manifestações e protestos.
Crescimento após ação audaciosa
A fama nacional veio com uma ação espetacular, em maio de 1967.
A Assembleia Estadual da Califórnia, sediada em Sacramento, tinha agendado a discussão de projeto que proibia o porte de armas. Sob comando de Bobby Seale, trinta militantes ocuparam, armados, as instalações do organismo legislativo, em protesto contra medida que enfraqueceria os Panteras Negras diante da polícia.
Imagens de tamanha audácia percorreram o país.
Seu prestígio cresceu aceleradamente, atraindo jovens militantes por toda a parte, que abriam escritórios do partido, aderiam a seu programa e se paramentavam para a guerra. 
As ambições eram vigorosas: emprego, educação, habitação, fim da brutalidade policial, julgamento de negros apenas por juízes e júris negros, revogação do serviço militar obrigatório, liberdade para os afro-americanos decidirem se queriam continuar incorporados aos Estados Unidos ou fundar sua própria nação.
Também manifestavam seu repúdio à intervenção norte-americana no Vietnã. Não queriam apenas a paz e a retirada das tropas. Batalhavam pela vitória dos comunistas de Ho Chi Minh, o líder da independência do país asiático, contra os exércitos chefiados pela Casa Branca. 
Foi nessa batida que logo se transformaram na corrente mais relevante do chamado Poder Negro.
Sob esse guarda-chuva se abrigava, entre os anos 60 e 70, uma constelação de movimentos e grupos dispostos à insurgência contra um modelo que, aos seus olhos, estava marcado pelo cruzamento entre supremacia branca, domínio dos ricos e neocolonialismo.
“Nascemos como uma organização comunitária, mas logo nos reivindicamos como partido revolucionário”, relembra Kathleen Neal Cleaver, primeira mulher a integrar o comitê central dos Panteras Negras. “Sob a influência da Revolução Cubana e da guerra de libertação dos vietnamitas, além do impacto das ideias de Mao Tse Tung, assumimos identidade marxista, mas nas condições específicas da luta anticolonial dos negros norte-americanos.”
Reprodução/Emory Douglas

Aos 71 anos, Kathleen é atualmente professora na Universidade de Yale, uma das mais prestigiadas do planeta. Formada em Direito, dedica-se ao estudo de questões afro-americanas.
Casada por vinte anos com um dos chefes históricos dos Panteras Negras, Eldridge Cleaver, o terceiro homem da troika que também incluía Newton e Seale, ela foi secretária de Comunicação do partido entre 1967 e 1969, antes de se exilar na Argélia, com o marido, então condenado por tentativa de homicídio, durante tiroteio contra policiais de Oakland.
“Os Estados Unidos são diferentes de outros países capitalistas”, afirma, resumindo análise que embasava sua organização. “A estrutura econômica e social tem um componente de dominação colonial dentro do próprio território, para o qual outros povos foram trazidos à força. Não se trata apenas de preconceito racial, mas de supremacia como forma de Estado e sociedade.”
Essa lógica levou os Panteras Negras a aceitarem filiação apenas de afro-americanos. Apostavam que interesses comuns seriam defendidos por coalizões entre distintas agremiações, cada qual com sua própria identidade nacional ou étnica.
Estado versus Panteras Negras
Parte da imprensa aproveitou este critério para enquadrar o agrupamento como racista, defensor de alguma espécie de supremacia negra. A outra perna da campanha de desconstrução era pintá-lo como adepto da violência e do terror.
“Nós estávamos em guerra e tínhamos o direito de nos defender”, declara Elaine Brown, a última presidente do partido antes de sua dissolução. “Mas recorríamos à violência apenas quando atacados. Nosso trabalho principal era educacional e de organização social.”
Kathleen Cleaver (esq.) e Elaine Brown (dir.), em fotos dos anos 70 e atualmente

Nascida em um gueto de Filadélfia, atualmente com 73 anos, a ativista também se fez cantora e escritora. Quando os Panteras Negras estavam já em seu ocaso, divididos e sob severa repressão, Elaine foi nomeada por Newton, foragido em Cuba, a nova comandante do movimento, cargo que ocuparia entre 1974 e 1977.
“Ninguém tinha a receita para enfrentar o padrão repressivo que foi sendo adotado pelo governo”, relembra Elaine. “Tentamos aplicar uma das máximas de Mao, de que a guerrilha deve se mover entre as pessoas como um peixe nadando no mar. Mas o cerco se fechava.”
Além da autodefesa, a legenda fez-se conhecida por implantar programas de assistência nos bairros mais pobres, dos quais o mais famoso talvez tenha sido o café da manhã para crianças de famílias paupérrimas. Provou-se estratégia inteligente para ampliar influência e atrair novos militantes, além de permitir a construção de expressiva rede financeira entre artistas, intelectuais e até empresários.
Os Panteras Negras também conseguiram manter um semanário de circulação nacional e construir escolas de formação política, nas quais milhares de homens e mulheres foram educados.
Participaram igualmente de processos eleitorais, na fórmula do Partido Paz e Liberdade, uma casa de esquerda até hoje em atividade, pela qual Eldridge Cleaver disputou as eleições presidenciais de 1968. Conquistou menos de 50 mil sufrágios: poucos eram os afro-americanos inscritos para votar.
Vídeo em tributo aos Panteras Negras, grupo fundado em Oakland em 1966.

Não alcançaram, em seu auge, mais que 10 mil militantes, segundo cálculos de vários dirigentes. O potencial de crescimento social, político e até militar, contudo, despertou a atenção e a ira dos organismos de segurança.
Hoover ordenou ao FBI que praticasse toda sorte de operação para desmoralizar, dividir e destruir os Panteras Negras. A caixa de ferramentas contra a organização rebelde era completa: infiltrações, denúncias forjadas, assassinatos, prisões em massa, provas plantadas.
A polícia de Los Angeles, seguida pela de outras cidades, deu contribuição cinematográfica à caçada anunciada, com a criação da SWAT, tropa especial forjada para o combate ao partido de Newton, Seale e Cleaver. Seu batismo de fogo foi uma batalha para tomar de assalto a sede da agremiação na cidade dos anjos.
Fim do grupo nos anos 80
O Senado norte-americano, em 1975, reconheceria oficialmente as ilegalidades cometidas. Nenhuma reparação, no entanto, foi determinada. Os que haviam sobrevivido, muitos apodrecendo atrás das grades, não foram contemplados por qualquer lei de anistia ou indulto. Os policiais responsáveis jamais seriam punidos.
A esta altura, além do mais, o fardo de prisões, mortes e divisões já era insuportável. O partido praticamente deixara de existir, apesar dos empenhos de sobrevida até 1982.
Muitos de seus militantes iriam se incorporar a outros agrupamentos, especialmente ao Exército Negro de Libertação, atuante até meados dos anos 80. O poder de mobilização e representação dos Panteras Negras, no entanto, tinha sido esmagado pelo Estado mais poderoso do mundo.
O chefe da polícia federal norte-americana cumprira a ameaça contida em um documento oficial do FBI: “Jovens negros e ativistas moderados precisam entender que, caso resolvam se transformar em revolucionários, serão revolucionários mortos.”
Fonte : Opera Mundi

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Chernobyl - 30 anos.

As torres de refrigeração se escondem na névoa, mas é possível ver as linhas que desenham as cercas de arame que protegem a enorme planta nuclear em Ostrovets.
Gorin, um homem afável com aspecto de lutador e com um aperto de mãos à altura, é o engenheiro-chefe da primeira instalação nuclear de Belarus.
Passaram-se 30 anos da tragédia de Chernobyl que, ainda que ocorrida na vizinha Ucrânia, afetou principalmente Belarus, a antiga Bielorrússia. Certa de 70% da radiação vazada da usina foram parar em Belarus; um quinto da atividade agrícola do país foi contaminado.
"Nossos métodos de design e construção estão entre os mais seguros do mundo", disse Gorin. "Estamos orgulhosos de poder ter uma planta nuclear deste tipo em nosso país."
Em seguida, nos mostra (a mim e a um grupo de jornalistas locais) uma quantidade enorme de dados e estatísticas.
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Image captionSegundo engenheiro, central nuclear tem 'design seguro'

Voltar ao futuro

Gorin explica os centímetros de espessura da carcaça de aço do reator e as milhares - ou seriam milhões - de toneladas de concreto que estão sendo usadas para construir a nave.
Belarus tem apenas 9,5 milhões de habitantes e é um dos países mais planos do planeta.
É possível dirigir durante quilômetros por estradas basicamente desertas, rodeadas de árvores que se erguem como regimentos de soldados.
O vento sopra através do estepe. As páginas do meu caderno de anotações se molham com o chuvisco. E nossos guias - há um bom número deles - estão chateados porque temem que o clima possa impedi-los de mostrar a melhor face de sua planta nuclear.
Depois, nos dirigimos para a sala de controle da central.
Assim como a nave espacial Enterprise, do seriado Jornada nas Estrelas, tudo está cheio de telas de computadores gigantes e de luzes de led piscando vigiadas por uma falange de especialistas uniformizados.
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Image captionPainéis e luzes na sala de controle
E, imediatamente, um alarme ruidoso dispara na sala de controle nuclear, ao mesmo tempo em que luzes vermelhas começam a piscar.
Os homens uniformizados começam a pressionar botões e se apressam a fazer ligações urgentes.
Segurando meu capacete, procuro uma mesa onde refugiar-me. E então me dou conta de que a estação nuclear só foi construída pela metade e que se trata de um exercício de situação de emergência.

País de contrastes

Belarus é um país sério e surrealista ao mesmo tempo.
Tem um ar austero e pesado, mas também é capaz de te seduzir com bom humor e gentileza.
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Image captionSinais alertam para contaminação da zona onde ocorreu acidente de Chernobyl
E, assim como nos velhos tempos da União Soviética, os que ocupam cargos de autoridade podem ser bem rudes.
Quando fui à ópera e cometi o grave erro de esquecer o número do armário em que guardei o casaco - a mulher responsável me repreendeu por descuido.
Mas depois se acalmou e passou a ter pena do estrangeiro esquecido, procurando meu casaco estante por estante.
Outra espectadora, uma mulher de Belarus, até ofereceu emprestado o casaco de seu marido.
Em outra ocasião, quando após uma hora de espera em um restaurante meu prato não chegava, perguntei à garçonete e ela foi desdenhosa.
Mas quando o prato (pouco apetitoso) por fim chegou, observei que o chef havia deixado escrita uma mensagem com molho que dizia "peço desculpas".
A capital de Belarus, Minsk, que se eleva bruscamente sobre a estepe como uma cenário, é feita de largas avenidas com blocos de pisos homogêneos.
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Image captionPadre ortodoxo benze máquina de construção de usina nuclear
Há estátuas de Lênin e grandes praças abertas para desfiles militares. Mas também há muitas igrejas, modernos cafés e lojas de moda.

Sentimentos dúbios

É difícil avaliar como se sentem os habitantes de Belarus - muitos dos quais ainda sofrem de câncer e outros problemas de saúde devido à tragédia de Chernobyl - com relação à nova usina nuclear.
Os que criticam o governo dizem que aqueles que criticam a planta são hostilizados ou presos.
Um mulher que nasceu em um povoado no sul de Belarus, perto de Chernobyl, descreveu uma área perto da sua antiga casa, na zona de exclusão de Chernobyl.
Com lágrimas nos olhos explicou como, devido à contaminação, só permitem que vá ao local uma vez ao ano visitar o túmulo de seus parentes.
Mas, por um estranho lance do destino, agora ela trabalha perto da nova estação - e se mostra otimista.
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Image captionMuitos habitantes de Belarus tiveram câncer devido à contaminação de Chernobyl
"A princípio parecia estranho morar tão perto da estação nuclear de novo, mas depois pensei 'esses acidentes não ocorrem duas vezes' e precisamos de energia", contou.
A central nuclear de Belarus fica perto da fronteira com a Lituânia e a apenas 50 km da Vilnius, capital do país báltico.
O governo da Lituânia disse que a planta nuclear, projetada e construída por uma empresa estatal russa, representa uma ameaça a sua segurança e que ele descumpriu acordos internacionais.
Gorin nega essas acusações.
"Olhem como somos transparentes, convidando todos para virem aqui", diz, entre foto e apertos de mãos.
"Talvez deveríamos lançar um jornal. Seria o The Atomic News (Notícias Atômicas, na tradução livre)", conclui, rindo.
Fonte: BBC Brasil.

sábado, 18 de julho de 2015

Mercosul assina novo protocolo de adesão da Bolívia como membro pleno do bloco.

Os Estados-membros do Mercosul assinaram nesta sexta-feira (17/07) um novo protocolo de adesão da Bolívia ao bloco como membro pleno. A decisão ocorreu em Brasília, pouco antes do início da  48ª cúpula do Mercosul.

EFE
Ministros e delegados se reúnem antes de encontro na capital do Brasil

O documento foi ratificado pelos ministros das Relações Exteriores David Choquehuanca (Bolívia); Mauro Vieira (Brasil); Eladio Loizaga (Paraguai); Rodolfo Nin Novoa (Uruguai); e Delcy Rodríguez (Venezuela). O vice-chanceler argentino, Eduardo Zuain, também assinou o papel.

O novo protocolo de adesão da Bolívia ao bloco sul-americano já era aguardado e é um dos principais destaques desta edição do encontro. De fato, o acordo de ingresso do país liderado por Evo Morales já havia sido assinado em dezembro de 2012.
Entretanto, o Paraguai esteve ausente desse processo, em virtude do golpe que tirou o presidente Fernando Lugo do poder — fato classificado pelos membros do Mercosul como uma  "ruptura da ordem democrática". Como o país é membro pleno do bloco e também deveria aprovar a entrada de um novo parceiro, o tratado acabou sendo interrompido.

Agora, o novo documento será enviado pela delegação paraguaia para o parlamento do país para sua ratificação. Esse trâmite não será necessário na Argentina, Uruguai e Venezuela, cujos legislativos já aprovaram o primeiro dos protocolos, mas o papel precisará do aval das câmaras do Brasil e da Bolívia.
Segundo a Agência Efe, também foram assinados novos protocolos sobre a adesão da Guiana e Suriname ao Mercosul, mas em qualidade de Estados associados, na mesma cerimônia desta manhã.
Fonte:Opera Mundi.

sábado, 16 de maio de 2015

POR QUE ISRAEL BRIGA COM O PAPA?

O anúncio do Vaticano, de que reconhecerá oficialmente o Estado da Palestina em novo tratado, provocou muxoxos e esperneios do governo liderado por Benjamin Netanyahu.
A razão é simples, embora pareça apenas simbólica em alguns aspectos.
O estatuto atual da Autoridade Palestina, inferior ao de nação plenamente estabelecida, favorece chantagem exercida pela aliança entre Israel e Estados Unidos.
Ou os palestinos aceitam exigências draconianas apresentadas pela direita sionista ou verão seu futuro nacional adiado para as calendas gregas: tais são os termos praticados por Tel Aviv, com a benção da Casa Branca.
Quando este cerco é rompido, através do estabelecimento de relações diplomáticas integrais, tanto por países quanto por fóruns internacionais, entra em crise a política de asfixia e protelação contra a Palestina.
Não é à toa a reação intempestiva protagonizada por Netanyahu desde 2011, quando Mahmoud Abbas, presidente da AP, solicitou condição de membro pleno na Organização das Nações Unidas.
Os Estados Unidos ameaçaram vetar, no Conselho de Segurança da instituição, qualquer decisão favorável a esta demanda. Acabou-se por atribuir o título de Estado observador à Palestina.
Algumas agências da ONU, no entanto, acataram a proposição de Abbas, como foi o caso da Unesco, imediatamente punida com o corte das contribuições devidas pelos norte-americanos à entidade.
A belicosidade sionista ficou ainda mais exacerbada no mês passado, quando os palestinos passaram a participar do Tribunal Penal Internacional, sediado em Haia.
A medida permite que crimes cometidos nos territórios ocupados por Israel desde 1967 possam ser julgados nessa corte, incluindo o massacre de civis na Faixa de Gaza, levado a cabo em 2014, durante a chamada Operação Margem Protetora.
Vários países e parlamentos seguiram a mesma senda, entre esses o Brasil e diversas outras nações sul-americanas. O papa Francisco agora se soma, oficialmente, ao bloco que pretende esvaziar o jogo sujo patrocinado pelos piores setores do sionismo.
A chancelaria israelense não tardou a demonstrar seu desagrado, em nota oficial: “Esse passo não faz avançar o processo de paz e põe os líderes palestinos ainda mais distantes de um retorno às negociações diretas e bilaterais.”
A redação cifrada não esconde o gosto amargo da derrota diplomática: a cada avanço na recepção incondicional da Palestina em organismos da comunidade internacional, mais se deslegitima o garrote racista de Israel.
A posição do Vaticano também atinge o plano simbólico, ao fixar comunhão entre católicos e muçulmanos a respeito da questão palestina.
Este movimento dificilmente provocará recuos importantes no comportamento de Israel, mas colabora para criar um novo ambiente, de crescente isolamento, no qual podem se multiplicar operações de boicote e pressão capazes de dobrar a coluna vertebral do colonialismo sionista, forçando-o a um acordo de paz justo e permanente.
O medo de Tel Aviv é viver, mais cedo ou mais tarde, sufoco semelhante ao da África do Sul na era do apartheid, tratada como pária pela maioria das nações até bater a mão na lona.
A preocupação não é despropositada, embora longínqua. A atitude do papa Francisco, nessa lógica, aproxima a hora da verdade para Netanyahu e seus aliados.
Fonte: Opera Mundi.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Banco dos Brics terá economista indiano como primeiro presidente.

O primeiro presidente do banco dos Brics (grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) será o economista indiano Kundapur Vaman Kamath. A informação foi confirmada nesta segunda-feira (11/05) pelo secretário de Finanças da Índia Rajiv Mehrishi, em declarações à imprensa.
Kundapur Vaman Kamath| Foto: Wikicommons
Kundapur Vaman Kamath| Foto: Wikicommons
Kamath atualmente é dirigente do ICICI Bank, o segundo maior banco indiano e o maior dos bancos privados do país asiático. Ele presidirá o banco dos Brics pelos próximos cinco anos. Após o prazo, a presidência será entregue ao Brasil.

A criação da entidade foi anunciada em julho de 2014 no Brasil e a ata constitutiva foi assinada em 15 de julho do mesmo ano na VI cúpula realizada no Brasil.
Com capital de US$ 100 bilhões de dólares, o banco foi concebido para servir de alternativa ao FMI (Fundo Monetário Internacional) e ao Banco Mundial.
Na última semana, o presidente russo, Vladimir Putin, ratificou a criação do fundo comum de reservas monetárias para o banco dos Brics, que tem como objetivo manter a estabilidade financeira do grupo em caso de problemas nos mercados mundiais, além de balancear a possível pressão sobre a balança de pagamentos dos países do bloco.

De acordo com o Centro de Intercâmbios Econômicos Internacionais da China, em 2030 os Brics representarão 50% do PIB do planeta. Hoje o bloco é responsável 25% da riqueza mundial.

Agência Efe

Banco e fundo de reservas financiarão projetos de infraestrutura e desenvolvimento para as cinco economias emergentes
Brasil
Em dezembro de 2014, a presidente Dilma Rousseff encaminhou duas mensagens ao Congresso Nacional. A Mensagem 444, que trata da criação do novo banco de desenvolvimento, e a Mensagem 445, que trata do estabelecimento do Arranjo Contingente de Reservas do BRICS. À época, o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, garantiu acelerar a tramitação das mensagens.
Após ir para o Congresso e ser aprovadas na Comissão de Relações Exteriores, as mensagens se tornam um projeto de decreto legislativo.
Fonte: Opera Mundi.

sábado, 25 de abril de 2015

Genocídio armênio faz 100 anos; veja pontos-chave da matança.


Imagem do Instituto-Museu do Genocídio Armênio, na qual se vê um grupo de armênios enforcados pelas forças otomanas em junho de 1915. / AFP











Em 1915, o Governo otomano ordenou a deportação dos armênios, uma comunidade cristã, para os desertos da Síria. Na perseguição que se seguiu, quase um milhão de pessoas morreram.
Na manhã desta sexta-feira, 100 anos depois do início do genocídio, umas 500 pessoas se reuniram em frente ao Museu de Arte Islâmica de Istambul, na Turquia, com flores e retratos das vítimas armênias. Este edifício, situado no centro do distrito turístico de Sultanahmet, tinha uma função muito mais sinistra naquela época: nele foram presos 250 intelectuais e líderes da comunidade armênia de Istambul, antes de ser enviados a prisões do interior de Anatólia (território que corresponde a dois terços da parte asiática da Turquia moderna, e onde está situada a capital Ancara), onde a maioria foi assassinada. Com este ato, se iniciou um período de deportações, massacres e perseguições que terminou com a vida de um milhão de armênios e fez com que a comunidade cristã do atual território da Turquia praticamente desaparecesse.
Apesar de que o Governo turco se nega a caracterizar estes fatos como genocídio, o ato em frente ao museu exigiu o "reconhecimento do genocídio, pedido de perdão oficial e reparação às vítimas". "Somos os netos de seus responsáveis e, enquanto nos permanecemos calados, continuamos a ser cúmplices", afirmou Eren Keskin, advogada e vice-presidenta da Associação de Direitos Humanos da Turquia, uma das organizadoras do protesto no qual estiveram presentes grupos da diáspora armênia, descendentes dos deportados, armênios que chegaram da França, Estados Unidos ou Armênia, sobreviventes de outros genocídios como o de Ruanda e do Holocausto judeu, além de grupos antirracistas europeus.
Estava previsto que milhares de armênios e turcos se concentrem na praça de Taksim de Istambul esta tarde para, juntos, recordar as vítimas do Mets Yeghern, ou Grande Calamidade, como se denomina em armênio este período.
Estes são os pontos-chave de um genocídio que há 100 anos se iniciava.
Milhares de pessoas recordam o genocídio armênio nesta sexta-feira em Istambul, Turquia. /YASIN AKGUL (AFP)

O contexto. Um império em decadência

No começo do século XX, entre 1,5 e dois milhões de armênios viviam no Império Otomano, e alguns membros desta comunidade se ocupavam respeitáveis posições na Administração —houve inclusive ministros armênios—, nos negócios financeiros ou como arquitetos da corte do sultão, pois eram conhecidos por sua fama de hábeis artesãos (a indústria global de pratos de bateria tem origem nos armênios de Istambul).
A situação econômica também era catastrófica. O Estado Otomano era constantemente obrigado a fazer concessões aos seus credores: as mesmas potências europeias que o derrotavam no campo de batalha. Nas províncias da Anatólia Oriental, os armênios eram submetidos à constante pilhagem por parte das tribos curdas e ao maltrato das autoridades otomanas. Surgiram então várias organizações, como a Federação Revolucionária Armênia (Dashnak) e o Partido Hunchak, que buscavam uma insurreição geral e a intervenção das potências em seu auxílio, em especial da Rússia. A repressão das autoridades otomanas foi brutal e milhares de armênios foram massacrados nospogroms de 1891-1896 e 1909.
Armênios recordam o centenário do genocídio, em Jerusalém. / GALI TIBBON (AFP)

Como ocorreram as deportações? As marchas da morte

A participação otomana na Primeira Guerra Mundial começou com uma sonora derrota contra os russos no Cáucaso. Apesar de a razão principal ter sido a desastrosa estratégia dos líderes otomanos, o Governo, liderado por um triunvirato de nacionalistas turcos —Enver, Talat e Cemal—, atribuiu o fracasso ao suposto apoio da população local armênia às tropas do Czar. Ao mesmo tempo, ocorreram insurreições dos partidos revolucionários armênios nas localidades de Zeitun e Van, o que foi utilizado pelas autoridades para tachar toda a população armênia de traidora.
No dia 24 de abril de 1915, cerca de 250 intelectuais e líderes armênios de Istambul foram detidos e deportados para Ancara, onde seriam executados. Era o início de um plano de limpeza étnica que ficaria estampado na Lei de Transferência e Reassentamento, aprovada em 27 de maio.
Com exceção de Istambul e Esmirna, além de algumas cidades menores que se livrariam das deportações por intercessão das autoridade otomanas, o mesmo método foi seguido em praticamente todos os lugares: primeiro os armênios foram obrigados a entregar suas armas —os soldados armênios do Exército otomano foram deslocados para batalhões de trabalho—, depois as figuras mais importantes foram presas e assassinadas; e posteriormente foi anunciado que os armênios seriam deportados. Antes do início da marcha, os homens idosos eram separados das mulheres e crianças e, na maioria dos casos, executados.
A rota, através da estepe da Anatólia e com destino aos desertos da Síria, se transformou em verdadeiras marchas da morte. Quase sem acesso à comida ou água, dizimados pelas doenças, milhares de armênios morreram pelo caminho. As filas de deportados eram constantemente submetidas ao assédio da polícia ou aos ataques de grupos criminosos de curdos, turcomenos e circassianos que, além de roubarem seus pertences, raptavam as jovens para estuprá-las ou levá-las como esposas. O sofrimento era tanto que muitas mulheres se suicidaram, pulando com seus filhos nos rios ou de precipícios.
Aqueles que conseguiam chegar até Urfa, Aleppo ou Deir ez-Zor eram praticamente mortos-vivos: “Vimos muitos armênios que haviam chegado antes de nós e que se tornaram esqueletos”, conta um dos deportados entrevistados no livro Survivors, de Donald E. Miller e Lorna Touryan. “Éramos rodeados por tantos esqueletos, que parecia que estávamos no inferno. Todos tinham fome e sede e buscavam rostos conhecidos que os ajudasse. Nos sentíamos terrivelmente sem esperança”.
Manifestantes queimam uma bandeira da Turquia nesta sexta feira, em Yerevan, Armênia. /VAHRAM BAGHDASARYAN (EFE)

Quantos armênios morreram? A guerra dos números

A cifra de vítimas e deportados continua sendo motivo de polêmica, já que ambas as partes ocultam ou utilizam os documentos da época para os próprios interesses.
De acordo com as autoridades da Armênia, 1,5 milhão de armênios morreram no genocídio, enquanto os nacionalistas turcos mais radicais reduzem esse número para menos de 300.000.
Segundo os documentos do ministro do Interior otomano, Talat Pasha, publicados há sete anos, cerca de um milhão de armênios foram deportados, cifra semelhante à oferecida na época pelas missões militares dos Estados Unidos (1,1 milhão) e da Grã-Bretanha (1,2 milhão), ou pelos números fornecidos pela delegação armênia à Conferência de Paz de Paris de 1919 (700.000).
Em 1916, Arnold J. Toynbee, um historiador britânico encarregado por seu país de documentar os massacres de armênios, falava em 600.000 mortos, alguns sobreviventes das deportações —parte deles morria posteriormente devido a doenças ou ataques— e mais de meio milhão que teriam escapado das deportações, alguns deles convertendo-se ao islã. O embaixador norte-americano em Istambul durante a guerra, Henry Morgenthau, tinha dados semelhantes, citando entre 600.000 e um milhão de mortos. O próprio Ministério do Interior Otomano tinha, em 1919, uma estimativa de 800.000 armênios mortos.
Um multidão recorda o início do genocídio armênio nesta sexta-feira, em Yerevan, Armênia. /DAVID MDZINARISHVILI (REUTERS)

O que aconteceu com os responsáveis? Operação Vingança

Os Estados vencedores da Primeira Guerra Mundial forçaram o Império Otomano a julgar, ainda que in absentia, os responsáveis das deportações de armênios, mas a falta de uma legislação penal internacional apropriada e o início da Guerra de Libertação Turca (1919-1922), que expulsou as forças aliadas da Anatólia e pôs fim ao Império Otomano, fizeram com que as potências se desentendessem sobre os julgamentos.
Em um congresso da Federação Revolucionária Armênia (Dashnak), de 1919, ficou decidido que, devido a falta de punição dos responsáveis —a maioria deles havia fugido do Império Otomano—, era preciso fazer justiça com as próprias mãos. O exilado armênio Shahan Natalie, cuja família havia sido assassinada nos massacres otomanos no fim do século XIX, ficou encarregado de planejar a operação de vingança, batizada de Nêmesis, em homenagem à deusa grega da justiça e da vingança. Num intervalo de três anos, os principais responsáveis políticos pela penúria dos armênios foram sendo mortos por pistoleiros armênios, como o ministro do Interior Talat Pacha, em Berlim; o Grão-Vizir Said Halim, em Roma; e o governador da Síria, Cemal Pacha, em Tbilisi. Enver Pacha, outro responsável, morreu lutando contra os soviéticos na Ásia Central.
Décadas mais tarde, um grupo de descendentes de sobreviventes armênios fundou o Exército Secreto para a Libertação da Armênia (ASALA), organização armada cujo objetivo era forçar o Governo turco a reconhecer o genocídio armênio, pagar indenizações às suas vítimas e ceder parte de seu território a uma Grande Armênia. O ASALA atuou entre 1975 e 1991, assassinando 46 pessoas —em sua maioria diplomatas turcos— e cometendo atentados contra civis nos aeroportos de Ancara e Paris-Orly. Em 1975, os militantes armênios atacaram o veículo da embaixada turca na Espanha, matando três pessoas; em 1979, colocaram bombas na sede madrilenha de duas companhias aéreas.
Mapa dos milhões de armênios espalhados pelo mundo. / EL PAÍS

O que aconteceu com os sobreviventes? A diáspora

No fim da Primeira Guerra Mundial, foi lançada uma campanha de ajuda internacional aos sobreviventes das deportações, e nos anos seguintes muitos foram enviados à Europa e à América. Alguns permaneceram nos territórios que hoje formam a Síria e o Líbano, e aqueles que viviam no leste da Anatólia escaparam da recém-criada Armênia soviética. Atualmente, cerca de cinco milhões de armênios vivem espalhados pelo mundo, fora das fronteiras da República da Armênia, principalmente na Rússia, Estados Unidos e França. Entre os representantes mais famosos da diáspora estão o músico francês Charles Aznavour, a cantora norte-americana Cher, os integrantes da banda System of a Down, a modelo Kim Kardashian e o empresário Kirk Kerkorian, um dos pais de Las Vegas.
Kerkorian e outros integrantes ricos da diáspora têm sido um dos pilares econômicos da paupérrima República da Armênia (três milhões de habitantes), através de suas doações e projetos de cooperação. Em geral, mantêm uma postura de forte confronto com a Turquia.
Mapa dos países que reconheceram o genocídio armênio. / EL PAÍS

As implicações internacionais

Até o momento, 23 países reconheceram as matanças sofridas pelos armênios como genocídio, entre eles a Rússia e a metade dos paísesda União Europeia. Na América Latina, os Parlamentos do Uruguai, Argentina, Venezuela, Chile e Bolívia fizeram o mesmo, enquanto na Espanha apenas os Parlamentos dos governos regionais de Euskadi, Baleares, Navarra e Catalunha reconheceram o fato.
Outros quatro países —Grécia, Chipre, Eslováquia e Suíça— proibiram a negação do genocídio sob pena de prisão ou multas, algo que a França tentou imitar em 2012, mas a lei foi derrubada pelo Tribunal Constitucional.
Frequentemente, enviados armênios pressionam os EUA para que a Casa Branca siga o caminho de 44 de seus estados, que já reconheceram o genocídio. Mas, por enquanto, isso não aconteceu, já que Washington não deseja se indispor com um aliado estratégico como a Turquia.
A falta de reconhecimento do genocídio por parte de Ancara é uma das questões que envenenam as relações entre a Turquia e a Armênia, cujas fronteiras permanecem fechadas. Embora seja verdade que essa falta de entendimento desempenhe um papel ainda mais crucial no conflito de Nagorno-Karabakh, um território que pertence legalmente ao Azerbaijão —aliado turco—, e que desde a guerra de 1992-1994 está ocupado pela Armênia.
Fonte: El País Brasil.