sábado, 11 de fevereiro de 2012

Egípcios marcam um ano da queda de Mubarak .


A revolta que derrubou Hosni Mubarak há um ano transformou a ordem política do Egito, na qual o ex-ditador está atualmente preso e os antes oprimidos islâmicos ocupam o Parlamento. No entanto, para a maior parte dos egípcios, os problemas continuam, principalmente devido à permanência da junta militar no poder do país e a demora para a transferência para um poder civil.
Foto: AP
Manifestante egípcio grita durante marcha contra a junta militar perto do prédio do Ministério da Defesa no Cairo (10/2/2012)
Milhares de egípcios marcharam até o Ministério da Defesa na sexta-feira para exigir que os generais entreguem o poder e militantes pró-democráticos convocaram para este sábado uma greve para marcar o primeiro aniversário da queda de Mubarake pressionar o Exército a abandonar o poder.
Vários grupos, incluindo Os Jovens de 6 de Abril, que contribuíram para lançar a revolta contra o ex-presidente, convocaram a população a aderir à paralisação.
Os estudantes têm previsto manifestar-se em várias universidades do país e na Praça Tahrir da capital, epicentro da contestação, para exigir a saída do poder do Conselho Supremo das Forças Armadas (CSFA), a quem Mubarak entregou as rédeas do país.
"Faço greve porque a situação do país é ruim. Não há qualquer diferença entre o conselho militar e Mubarak", afirmou à AFP Mahmud Magdy, estudante de economia da Universidade Aïn Shams.
A dominação intocável de três décadas de Mubarak desmoronou com o peso de 18 dias de protestos sem prescedentes nas ruas, formçando-o a renunciar em 11 de fevereiro. Pela primeira vez em décadas, egípcios sentiram que participavam do futuro do país. "O Egito nunca mais será o mesmo", anunciou o presidente dos EUA, Barack Obama, no dia da queda de Mubarak.
Contudo, um ano depois, a alegria deu lugar à frustração e à raiva, enquanto os conflitos políticos continuam, bem como a corrupção e o aumento dos preços, pressionando as famílias. Embora não tenha se envolvido nos protestos de sexta-feira, a Irmandade Muçulmana pediu que um governo de coalizão substitua o militar e criticou a atitude do governo no caso de violência no estádio de futebol de Port Said, onde ao menos 74 foram mortos.
"O povo quer a derrubada do marechal", cantaram os ativistas durante a marcha no Cairo, referindo-se ao marechal-de-campo Mohamed Hussein Tantawi, que está à frente do conselho do Exército.
"Estamos aqui para dizer a Tantawi a ao conselho militar que entreguem o poder. Esta é uma marcha pacífica e permanecerá como tal", disse a ativista Sara Kamel. "Desde que os generais subiram ao poder, eles não fizeram nada pelo Egito e eles querem dar continuidade ao legado de Mubarak."
A professora de Ciências Políticas da Universidade Americana do Cairo Rabab al-Mahdi dise que "Mubarak pode ter saído, mas os dois pilares de seu regime, uma forte repressão do Estado e um sistema econômico injusto, ainda sobrevivem". Porém, segundo ela, são esses mesmos fatores que levam a revolução à frente.
Mahdi considera que há um longo caminho a ser percorrido em busca dos objetivos da revolução, de liberdade e igualdade social, mas reconhece que "houve muitas mudanças".
A revolta colocou um líder autocrático no tribunal, levado pelos protestos da Primavera Árabe. Mubarak, seu ministro do Interior e seis chefes da segurança estão sendo julgados por seu envolvimento na morte de cerca de 800 manifestantes durante a revolta.
Foto: AP
Manifestantes egípcios carregam homem ferido durante confrontos com forças de segurança perto do Ministério do Interior, no Cairo (03/02/2012)
Seus dois filhos, Gamal e Alaa - símbolos do poder e da riqueza - também estão presos com antigos ministros e oficiais sob acusação de corrupção. O primeiro depoimento, em agosto, mostrou um Mubarak de 83 anos levado de maca ao tribunal, provocando um alívio coletivo no povo que viu a queda do Faraó ser televisionada ao vivo.
Seus arqui-inimigos, a Irmandade Muçulmana - há muito banida e cujos membros sofreram uma perseguição generalizada e, em alguns casos, brutal nas mãos do ministro do Interior - formaram o Partido Liberdade e Justiça e agora controlam metade das cadeiras no Parlamento.
Os movimentos salafistas, cujos adeptos ficaram presos por anos, tornaram-se mais radicais e conquistaram espaço no poder, com o partido Al-Nur ficando em segundo nas primeiras eleições livres e democráticas no Egito.
O novo Egito também foi tomado por instabilidade desde que a onipresente e odiada força policial de Mubarak desapareceu das ruas durante a revolução. Embates entre a polícia e os rebeldes, violência sectária, ataques a um encanamento que fornece gás para Israel e assaltos armados apenas enfureceram ainda mais os egípcios.Os integrantes podem ser diferentes, mas os debates no Parlamento refletem a mesma preocupação de anos atrás: o aumento do preço do gás butano, escassez de combustíveis, corrupção e a violência da polícia. "Muito foi mudado, mas muita coisa permanece igual," disse o analista Seif Abdul Shahid em uma coluna no website estatal Ahram Online. "A real questão não é tomar o poder, mas tirá-lo. Quando as pessoas clamaram pelo fim do sistema, tornaram-se mais do que simples pessoas," escreveu.
As autoridades religiosas do Egito pediram que os sindicatos e grupos de jovens descartem os planos para uma onda de greves destinada a forçar o Conselho Supremo das Forças Armadas a deixar o poder, dizendo que o povo precisa mostrar compromisso para com a nação e poupar a economia.
A televisão pública informou que os trabalhadores do setor dos transportes não vão apoiar a greve. O jornal pró-governamental Al Ahram, por sua parte, publicou em sua primeira página: "O povo rejeita a desobediência civil".
Depois dos chamados à mobilização, o Exército anunciou que se posicionaria em todo o país para garantir a segurança.
Jovens ativistas ignoraram os pedidos, cantando "desobediência civil é legítima, desobediência civil contra a pobreza e a fome" na sexta-feira, enquanto alguns saudavam os manifestantes a partir dos terraços e outros criticavam o grupo por atrapalhar o trânsito.
A proposta de greve colocou em evidência as profundas divisões entre os liberais e os grupos de jovens de esquerda de um lado e o Exército, os políticos islâmicos e os líderes religiosos de outro.
Foto: AP
Manifestante segura bandeira nacional durante protesto anti-militar na praça Tahrir, Cairo (10/2/2012)
Fonte: Último Segundo.

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