sábado, 10 de março de 2012

Somália ainda precisará de ajuda estrangeira por um bom tempo, diz especialista


Imersa em uma guerra civil desde 1991, a Somália é um país em ruínas e devastado pelos flagelos da miséria, fome e violência. Atualmente, um governo transitório baseado na capital Mogadíscio tenta trazer alguma estabilidade e um mínimo de serviços públicos para a população, mas com poucos avanços significativos. Mais de 18.000 soldados da Amisom (forças militares da União Africana), além de militares etíopes estão em território somali para combater o grupo islâmico insurgente Al Shabab, que recentemente se filiou à rede terrorista Al-Qaeda.

A pirataria contra os grandes cargueiros que passam por sua costa tem levado a Somália com frequência às manchetes de jornais do mundo. No entanto, essa não é a maior preocupação da população local, segundo a antropóloga Laura Hammond, professora da Universidade de Londres e especialista em países do chamado chifre da África, região onde se localiza a Somália.
“(A pirataria) É mais uma ameaça àqueles que querem fazer negócio com a Somália do que propriamente uma ameaça para os somalis. A maior preocupação deles é o conflito e o sofrimento humanitário que o país tem atravessado em 20 anos, e que tem sido aproveitado por uma mescla de atores nacionais e internacionais, que lucram em cima de guerra. É disso que eles estão realmente fartos”, disse a antropóloga, em entrevista exclusiva ao Opera Mundi.
J. R. Penteado

No fim de fevereiro, representantes de mais de 40 países se reuniram em Londres para discutir o papel da comunidade internacional na Somália. O encontro causou preocupação a respeito uma eventual intervenção estrangeira no país, que vive a expectativa de anunciar a descoberta de grandes reservas de petróleo. Laura Hammond não acredita que, neste momento, já exista uma corrida internacional por causa do petróleo somali. “Para mim, parece mais uma teoria da conspiração. Não estamos ainda no momento de um governo fazer esses tipos de negócios”.
Nesta entrevista, a antropóloga, que já prestou consultoria para uma série de organizações humanitárias, incluindo braços da ONU, Médicos sem Fronteiras e Comitê Internacional da Cruz Vermelha, fala sobre o futuro da Somália e prevê que a país ainda precisará de apoio humanitário por muito tempo. “Não acho que é realista dizer ‘agora, deixem a Somália para a gente e todos os problemas serão resolvidos’. Precisa haver um acordo na esfera da comunidade internacional para conferir mais autonomia aos somalis”, disse.
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O que estava em jogo nesta conferência internacional chamada para tratar sobre a “questão Somália”?
Provavelmente, uma série de coisas. Acho que o timing escolhido foi em razão dos recentes avanços militares conquistados no país.  O grupo Al Shabab supostamente está na defensiva e tem sido pressionado pelos etíopes no norte e no oeste, pelos quenianos no sul e no oeste, e pelas forças da Amisom de dentro de Mogadíscio. Eles estão sob certa pressão, sofreram perdas importantes, então militarmente havia uma oportunidade. O Reino Unido também quer lidar com o problema por conta da questão da pirataria e também por um “medo de terrorismo” de pessoas que estão passando por campos de treinamento na Somália e que possam vir futuramente para o seu território.

David Cameron declarou que “a Somália é um Estado falido que ameaça os interesses britânicos”. A sra. concorda com isso?
Bom, a ameaça é aos interesses do transporte naval, que tem grande relevância para o Reino Unido.  O custo de fazer negócio através dos canais do mar vermelho e pela costa leste africana subiu significativamente por causa da pirataria. E também há a questão que envolve a Al Shabab, que já deixaram claro que estão interessados em terrorismo não apenas dentro da Somália, mas também fora, seja exportando terrorismo para outros países africanos ou para o Reino Unido. Assim, é possível dizer que existe algum tipo de ameaça que afeta os interesses do Reino Unido, mas isso não significa que todo somali que mora em território britânico é um terrorista em potencial ou que a comunidade somali se apresenta como um problema particular.

O jornal The Guardian aventou a hipótese de uma possível intervenção militar na Somália, levada adiante pelo Reino Unido e outros países europeus, com ataques aéreos contra alvos ligados aos piratas e à Al Shabab . A sra. acredita que isso possa ocorrer?
Nunca diga nunca. Ataques com aviões não tripulados têm acontecido constantemente nos últimos meses dentro da Somália e nós sabemos disso. Hillary Clinton disse que ataques aéreos na Somália não eram uma boa ideia, quando ela sabe muito bem que seu governo tem feito isso por um bom tempo. Mas não sei se haverá uma escalada de intervenção militar no país. A ideia é a de que as forças da Amisom devam ser fortalecidas ao ponto de que a necessidade de envolvimento externo seja mínima.  Se isso ocorrer, devemos ver uma queda nos níveis nos ataques aéreos não tripulados que tem acontecido.

Quanto de ameaça a Al Shabab representa para a Somália?
A Al Shabab ainda é uma séria ameaça. Eles estão enfraquecidos, mas sempre podem se fortalecer novamente. Um dos perigos é que, caso as resoluções tiradas na conferência da última semana sejam mal implementadas, e os somalis sentirem que se trata apenas da perpetuação de intervenção externa no país, então eles ficarão fartos e apoiarão a Al Shabab . Então é muito cedo para falar se estamos vendo a morte da Al Shabab.

Em janeiro, começaram as perfurações em uma área da Somália onde se estima haver 4 bilhões de barris de petróleo em reserva. Esse fato pode ter a ver com um possível crescimento dos interesses dos países do Ocidente na Somália?
Você tem que tomar cuidado para não cair muito nessa história. Existe uma esperança de que haja petróleo no país, mas não acho que já haja acordos feitos para se entregar tudo. Os somalis estão preocupados com a hipótese de que essa conferência em Londres tenha sido um pretexto para se entregar os direitos de exploração do petróleo no país, mas não acho que seja esse o caso. Para mim, parece mais uma teoria da conspiração. Não estamos ainda no momento de um governo fazer esses tipos de negócios. Em termos amplos, sim, o governo dá as boas-vindas a investimentos estrangeiros, recebe parcerias publico-privadas, e você pode considerar que futuramente possa haver negócios relacionados a petróleo. Mas espero que esteja certa, que esses negócios específicos ainda não tenham sido feitos, e estaria muito surpresa se eles aconteceram.

Quão sério é o problema da pirataria na Somália?
É mais uma ameaça àqueles que querem fazer negócio com a Somália do que propriamente uma ameaça para os somalis. O povo somali não está particularmente preocupado com a pirataria, pois não é muito afetado. Comerciantes pagam algumas taxas de proteção aos piratas, mas que são relativamente baixas. Os somalis podem ir e vir sem grandes problemas. O dinheiro conseguido pelos resgates pagos pelas empresas que tiveram seus cargueiros sequestrados se distribuem pela economia local. A maior preocupação deles é o conflito e o sofrimento humanitário que o país tem atravessado em 20 anos, e que tem sido aproveitado por uma mescla de atores nacionais e internacionais, que lucram em cima de guerra. É disso que eles estão realmente fartos.

Alguns somalis reclamam da presença de forças militares da Etiópia e do Quênia em seu território. Quais os interesses desses países na Somália?
A Etiópia tem um grande interesse de que haja um governo amigável ou, caso esta opção não seja possível, de que não haja nenhum governo na Somália. Eles gostariam de ter influência sobre qualquer acordo político que seja feito, então se certificam que sempre estejam lá na porta da Somália ou às vezes atravessando a porta – no momento, estão atravessando a porta. E em razão disso, porque eles são sempre rápidos em se envolver, eles são muito odiados pelos somalis. Há uma longa história de animosidade entre Somália e Etiópia, pelo menos em nível político. Os somalis são muito descrentes sobre qualquer coisa que pareça uma intervenção etíope. Da perspectiva dos quenianos, eles reagiram quando sua própria indústria de turismo começou ser afetada, já que ela é extremamente importante para sua economia nacional. Eles também gostariam de eliminar a Al Shabab e estão em sua caça. Mas é só isso. Eles possuem outros interesses, mas em um nível menor que a Etiópia, pois o Quênia possui a própria costa, e não depende de uma relação amigável para ter acesso ao mar, como a Etiópia.

Uma questão importante, porém, é que os somalis veem todas essas pessoas como invasores cristãos que devem sair imediatamente. Se alguém quer enviar forças de paz africanas, então que se encontre países muçulmanos. Existe toda uma narrativa propagandeada pela Al Shabab que tem a ver com os cristão africanos, vindo para converter a Somália, como que em uma Cruzada. Seria mais útil se houvesse mais tropas muçulmanas além das poucas presentes do Djibuti.
A sra. acha que a Somália consegue sobreviver sem nenhum apoio estrangeiro militar nem humanitário?
Idealisticamente, sem o apoio militar, sim. Sem apoio humanitário, no curto e médio prazo, não. Não acho que é realista dizer "agora, deixem a Somália para a gente e todos os problemas serão resolvidos". Precisa haver um acordo na esfera da comunidade internacional para conferir mais autonomia aos somalis e foi por isso que eles se encontraram aqui em Londres para debater. É um pouco ingênuo dizer "Apenas nos deixem sozinhos, estaremos bem, arrumem suas coisas e vão, que todos os problemas irão desaparecer". Há várias divisões entre somalis de dentro do país, de diferentes regiões e diferentes clãs. Há problemas entre os somalis emigrados que retornam ao país e que não se dão com aqueles que estão ali. Todos tem uma visão diferente sobre o que tem que acontecer.

Em um ou dois anos, seria importante ver o desenvolvimento do exército nacional somali, tendo como referência o trabalho da Amisom, para que então esta deixe o país. Pois, para os somalis, não está claro por quanto tempo a Amisom ficará lá, por que está lá e quais os objetivos finais pelos quais ela está trabalhando.
Fonte: Opera Mundi.

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