quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

CHINA: “A ECONOMIA SOCIALISTA DE MERCADO" .



A China é hoje um país com dois sistemas econômicos: o socialista, que resiste nas regiões mais distantes dos grandes centros e sobretudo nas relações de propriedade - os meios de produção, em sua maioria, permanecem nas mãos do Estado -, e o capitalista, que organiza cada vez mais as relações de produção e de trabalho, sobretudo nas regiões mais modernas. Esses dois modelos econômicos estão amalgamados por um sistema político próprio: a ditadura do partido único, o Partido Comunista Chinês.
A economia chinesa foi a que mais cresceu no mundo ao longo dos anos 1980 e 1990, enquanto a da União Soviética, seu modelo inspirador, encolheu de maneira significativa. O país já é a segunda economia do planeta, e o mercado mundial é invadido num ritmo crescente por produtos made in China ("feitos na China"). Como explicar claramente esses fatos? Para isso, é fun­damental que se faça uma retrospectiva, embora rápida, de sua história. .

Da China imperial à China comunista
A China é um país milenar. Ao longo de séculos de história, alternou períodos de maior ou menor produção tecnológica, cultural e artística: basta lembrar a pólvora e a bússola, ali desen­volvidas durante a Idade Média européia, ou a Grande Muralha e as cerca de 7 000 estátuas dos guerreiros de Xi'an, construídas dois séculos antes da era cristã e descobertas somente em 1974. Várias dinastias governaram a China, mas no final do século XIX, sob o governo da dinastia Manchu, o império estava decadente. A figura do imperador era apenas pro forma, decorativa, porque naquela época o país fora partilhado entre várias potências estrangeiras.
No início do século XX, sob a liderança de um jovem médico chamado Sun Yat-sen, foi organizado um movimento nacionalista hostil à dinastia Manchu e à dominação estrangeira. Esse movimento culminou em uma revolução, em 1911, que atingiu as principais cidades do país. Tal revolução pôs fim ao império e instau­rou a república em 1912. Sob a direção de Sun Yat-sen, foi organizado o Partido Nacionalista, o Kuomintang.
Apesar da proclamação da República, o país continuava mergulhado no caos político, eco­nômico e social. O poder permanecia fragmentado. Muitas regiões estavam sob o controle de li­deranças locais, os chamados "senhores da guerra". Pequim controlava apenas uma pequena parte do país, e mantinham-se os laços de dependência com as potências estrangeiras.
Extremo Oriente Político.
Foi por aquela época que começou a se desenvolver uma incipiente industrialização, com a chegada de capitais estrangeiros interessados em aproveitar a mão-de-obra muito barata e a grande disponibilidade de matérias-primas. Começaram a ser instaladas algumas fábricas nas principais cidades do país, sobretudo em Xangai. No conjunto, porém, a China continuava a ser um país de camponeses dominado por estrangeiros. A tímida industrialização foi interrompida pela invasão e ocupação da China pelo Japão, na década de 1930, e pela guerra civil, que se estendeu de 1927 até 1949. Entre os intelectuais chineses, desiludidos com a ideologia liberal, e ante a impossibilidade de desenvolvimento dentro de um modelo capitalista dependente, as idéias revolucionárias ganharam força. Além de receber influência da Revolução Russa, essas idéias agora se juntavam ao sentimento nacionalista e anticolonial que deu origem, em 1921, ao Partido Comunista Chinês (PCC), do qual fazia parte, entre seus fundadores, Mao Tse-tung, seu futuro líder.
Com a morte de Sun Yat-sen, em 1925, o Kuomintang passou a ser controlado por Chiang Kai­shek. Depois de uma curta convivência pacífica, em 1927 o governo nacionalista colocou o PCC na ilegalidade, iniciando uma guerra civil entre comunistas e nacionalistas que se estenderia, com breves interrupções para combater os japoneses, até o fim da década de 1940. Depois de unificar o país, em 1928, Chiang Kai-shek passou a liderar o Governo Nacional da China com mão-de-ferro. Assim, na década de 1930, paralelamente à ocupação japonesa na Manchúria (região onde se localiza Pequim, atual capital chinesa, também conhecida por Beijing), o enfrentamento entre comunistas e nacionalistas persistia. Em 1934, os japoneses implantaram na Manchúria, com a conivência das potências ocidentais, o Manchukuo (Reino Manchu), um país apenas formalmente independente, tendo como governante Pu Yi, o último imperador chinês, que ficara aprisionado ainda criança na Cidade Proibida desde a pro­clamação da República, em 1912. Pu Yi, po­rém, era um imperador fantoche. Quem gover­nava Manchukuo de fato eram os japoneses, que tinham se apoderado de uma das regiões mais ricas em minérios e combustíveis fósseis de toda a China.
Em 1937, os japoneses declararam guerra total contra a China, atacando-a maciçamente. Chegaram a ocupar, próximo do fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, cerca de dois terços do território chinês. As cidades mais importantes do país estavam sob seu controle. Somente nesse curto período houve um apaziguamento entre comunistas e nacionalistas, empenhados em derrotar os invasores japoneses. Bastou, no entanto, que o Japão assinasse sua rendição para que o conflito interno na China se agravasse.
Depois de 22 anos de guerra civil, com breves interrupções, os comunistas do Exército de Libertação Popular, liderados por Mao Tse-tung, saíram vitoriosos. Em outubro de 1949 foi proclamada a República Popular da China. O país foi unificado sob o controle dos comunistas, comandados por Mao, então secretário-geral do PCC: nascia a China Comunista. Os membros do Kuomintang, comandados por Chiang Kai-shek, ao se refugiarem na Ilha de Formosa, ali fun­daram a República da China Nacionalista, também conhecida como Taiwan.

A China comunista
A Revolução Chinesa de 1949 foi um grande divisor de águas na história do país, e isso já ficara evidente quando Mao Tse-tung, em discurso feito durante a proclamação da República, afirmou para uma multidão em Pequim: "O povo chinês se levantou (...); ninguém nos insultará novamente" .
Pelo menos no início, até mesmo por falta de opção, a China revolucionária seguiu o modelo político-econômico vigente na antiga União Soviética. Com base na ideologia marxista-leninista, implantou-se um regime político centralizado sob o controle do Partido Comunista Chinês, cujo líder máximo era o secretário-geral, Mao Tse-tung. Economicamente, como resultado da coletivização das terras, implantaram-se de modo gradativo as comunas populares, que seguiam, em linhas gerais, o modelo das fazendas coletivas da União Soviética. O Estado passou a con­trolar também todas as fábricas e recursos naturais. É oportuno lembrar que a Revolução Chinesa, de modo diverso da Russa, foi essencialmente camponesa. Para se ter uma idéia, nessa época havia na China em torno de 3,2 milhões de operários, o que equivalia a apenas 0,6% da população (cerca de 540 milhões de habitantes). Assim, somente após a revolução é que a China reiniciou seu conturbado processo de industrialização.

O processo de industrialização
Seguindo o modelo soviético, inicialmente o Estado chinês passou a planificar a economia. Em 1957, Mao Tse-tung lançou um ambicioso plano, conhecido como o Grande Salto à Frente, que se estenderia até 1961. Esse plano pretendia queimar etapas na consolidação do socialismo por meio da implantação de um parque industrial amplo e diversificado. Para tanto, a China passou a priorizar investimentos na indústria de base, na indústria bélica e em obras de infra-estrutura que sustentassem o processo de industrialização. Apesar de dispor de numerosa mão-de-obra e de abundantes recursos minerais e energéticos (veja a tabela abaixo), a industrialização chinesa teve idas e vindas. O Grande Salto à Frente mostrou-se um grande fracasso, desarticulando totalmente a economia industrial e agrícola do país.
A industrialização chinesa padeceu dos mesmos males do modelo soviético: baixa produti­vidade, produção insuficiente, baixa qualidade, concentração de capitais no setor armamentista, burocratização etc.
Com o fracasso do Grande Salto, os opositores de Mao Tse-tung dentro do Partido Comu­nista, liderados por Deng Xiaoping, se fortaleceram. Para tentar reverter essa situação, Mao lançou o movimento conhecido como Revolução Cultural (1966-1976), que agravou a crise econômica do país e o enfrentamento político dentro do partido. Esse movimento, além de tentar enfraquecer os burocratas do PCC, adversários de Mao Tse-tung, buscava combater o modelo soviético que então imperava na economia chinesa. A Revolução Cultural foi marcada por vio­lenta perseguição aos supostos contra-revolucionários e por isolamento econômico em relação ao exterior.
As divergências e as desconfianças entre os líderes dos dois principais países socialistas aumentavam cada vez mais. Em 1964, a China detonou sua primeira bomba atômica e, três anos depois, a de hidrogênio. A União Soviética, por sua vez, não admitia perder a hegemonia nuclear no bloco socialista. Esse fato decisivo, somado às divergências quanto ao modelo de socialismo, acabou provocando o rompimento entre a União Soviética e a China, em 1965. Como conse­qüência, Moscou retirou todos os assessores e técnicos soviéticos que mantinha na China, agra­vando ainda mais os problemas econômicos desta. O rompimento sino-soviético abriu caminho para a aproximação sino-americana, iniciada com a viagem do presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, à China, em 1972. Foi nessa época que a República Popular da China foi admitida na ONU, em substituição a Taiwan*, tornando-se membro permanente do Conselho de Segurança.
Com a morte de Mao Tse-tung, em 1976, ascendeu ao poder Deng Xiaoping. O novo líder pôs fim à Revolução Cultural e iniciou um processo de desmaoização na China. Uma nova revolução estava por acontecer.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Riquezas minerais, além do combate ao terror, explicam intervenção francesa no Mali.


O Mali, país localizado na região da costa oeste africana, está desde o dia 11 de janeiro sob intervenção das Forças Armadas da França, país de quem foi colônia até 1959. O país enfrenta uma guerra civil iniciada no ano passado por rebeldes separatistas de origem tuaregue e que, posteriormente, teve o envolvimento de uma coalizão de milícias de orientação religiosa que se aproximava rapidamente da capital, Bamako, sudoeste do país.


Oficialmente, a justificativa do presidente francês François Hollande para a ação militar é que ele recebeu um pedido de emergência do presidente malinês, Dioncounda Traoré, e que o único objetivo do país europeu seria assegurar a segurança do país africano, afastando-o do risco de ser tomado por forças militares terroristas.



Por um lado, a versão oficial é apoiada pela população francesa, pelo governo do Mali e pelos países vizinhos. No entanto, os críticos apontam outros motivos (como a riqueza dos recursos naturais malineses) para que a intervenção seja interpretada como uma nova ofensiva neocolonialista da França na região. Outro aspecto levado em conta para criticar a iniciativa é a baixa popularidade de Hollande, que poderá reverter a tendência de queda livre em caso de sucesso militar.



Especialistas africanos entrevistados pela reportagem de Opera Mundi afirmam que a medida era necessária, mas poderá trazer problemas para as tropas francesas caso a ofensiva se prolongue ou a relação entre as tropas e os civis malineses se deteriore.




As razões da França e o subsolo do Mali



“Temos um único objetivo: assegurar que, quando sairmos, ao fim de nossa intervenção, o Mali esteja seguro, com autoridades legítimas, um processo eleitoral em curso e sem mais terroristas ameaçando seu território”. Essa declaração é de um dos trechos em que Hollande justifica os motivos da França ter entrado no conflito.



"O Mali enfrenta uma agressão de elementos terroristas que vêm do norte [do país] e que todo o mundo conhece pela brutalidade e pelo fanatismo. Está em jogo a própria existência deste Estado amigo, a segurança de sua população e a de nossos seis mil cidadãos que estão lá", acrescentou o presidente francês.



“A intervenção no Mali é completamente legal e legítima: acima de tudo, ela pretende combater uma coalizão de grupos terroristas que tomou o norte do país e impôs a sharia a essa população, submetendo-os a violações graves dos direitos humanos. As tropas do Mali não tinham condição alguma de combate-los, era impossível. Se a França não tivesse entrado, as forças rebeldes já teriam tomado em Bamako”, afirma o senegalês Hamidou Anne, especialista em Relações Internacionais e membro do think tank africano Teranga em entrevista a Opera Mundi.



Ele lembra que, diferentemente de outras ocasiões, essa ofensiva foi solicitada pelo presidente malinês e teve apoio do Conselho de Segurança da ONU.



Agência Efe (11/01)
O presidente francês, François Hollande, no discurso em que anunciou o envio de tropas francesas ao Mali.



O marfinense Joel Te-Lessia, especialista em Relações Internacionais, lembra também que um dos principais argumentos justificados por Hollande, a integridade territorial do Mali, “não é verdadeiro. Tanto que seu antecessor, Nicolas Sarkozy, no início do conflito, havia orientado o governo malinês a negociar, não com os terroristas, mas com o MNLA (Movimento Nacional de Libertação de Azawad, grupo separatista secular). Quando os rebeldes perderam o controle para os islamistas, a situação mudou”.



Te-Lessia lembra que, inicialmente, estava previsto que a ofensiva seria comandada por países africanos, coordenados pela Cedeao (Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental), com os franceses apoiando na logística. “No mês desde outubro (quando o CS da ONU deu o sinal verde), eles não se mostraram prontos. Acredito que Hollande não tinha o desejo que a França interviesse, não era interessante para ele que a imagem da França como estado policial voltasse ao imaginário africano, mas as forças do Mali não podiam fazer mais nada, nem as africanas ; e os outros países vizinhos estariam em perigo”.







No entanto, para o jornalista suíço Gilles Labarthe, fundador da agência de notícia Datas, as intenções da França passam longe de termos como “guerra ao terror” e “ajuda humanitária”. Especialista em colonialismo francês e autor de livros como "L'or africain. Pillages, trafics & commerce international" (em tradução livre "O ouro africano: pilhagens, tráfico e comércio internacional"; editora Agone, 2007), ele afirma, em entrevista ao site espanhol Publico.es, que parece “claro que a França e o resto dos países implicados no Mali estão se movendo pelo interesse de assegurarem os recursos minerais da região, como já ocorreu há dois anos na Líbia”.



O jornalista admite que “é mais difícil identificar que o lobby industrial está por trás de tudo”, mas ele aponta que importantes companhias extrativistas como a Aréva possuem o direito de explorar o urânio no Níger e estão a apenas 200 quilômetros da fronteira com o Mali. A empresa fechou 2012 com um crescimento de 4% a 6% no faturamento, e há perspectiva de crescimento em 2013. A França tem a energia nuclear como principal fonte de sua matriz energética, e seu governo é proprietário de 14,33% da companhia.

Sobre as intenções francesas, Anne lembra uma frase do general Charles de Gaulle: “Os estados não têm amigos, tem interesses”. “Ninguém duvida que, caso as forças oficiais vençam, os franceses terão interesses nesses recursos. Não será surpresa se a França tiver uma maior presença no setor de extração mineral”, afirmou ele.


“Se o Mali cair nas mãos dos terroristas, estes terão ao leste a fronteira com o Níger, aberta e completamente vulnerável. Lá estão situadas minas de urânio, com companhias francesas instaladas por lá. Claro que esse fator teve uma importância na decisão”, diz Le-Tessia.



Carlos Latuff/Opera Mundi



Apesar de possuir extensa superfície desértica, o Mali é uma vasta fonte de recursos minerais, muitos deles ainda não explorados. 



As prospecções de urânio no país são animadoras, principalmente na região de Kidal (leste, zona reivindicada por separatistas e controlada pela coalizão insurgente islâmica), próximas ao Niger.



O Mali é também o terceiro maior extrator de ouro na África. No entanto, a maioria das minas de ouro do país está localizada no sul, próxima à fronteira com o Senegal, não havendo consequência imediata para o processo de extração.



Além do urânio e ouro, o país também possui destacadas reservas de cobre, diamante, manganês, ferro, fosfato, bauxita, zinco, lítio, entre outros metais (ver infográfico acima), além da possibilidade de se tornar importante exportador de petróleo – com a maioria das reservas localizadas na região norte.



Tempo indeterminado



Hollande afirmou que a França ficará no Mali "o tempo que for preciso". E, nos primeiros dias, os oficiais franceses se surpreenderam com a organização e os equipamentos das forças rebeldes.



Agência Efe (18/01)
Manifestantes egípcios protestam contra a ofensiva en frente à embaixada francesa no Cairo.



A possibilidade de a operação se prolongar poderá ser o principal fator, no futuro, a transformar a aprovação inicial da ofensiva em revés. “Se a França ficar muito tempo, o problema é que inevitavelmente começaremos a contabilizar muitas vítimas civis. Quando isso começar a ocorrer, o papel da França será questionado”, dizTLe-Lessia.



Apoio interno



Na França, a intervenção francesa no Mali contou com apoio da população. Uma pesquisa realizada na última terça-feira (15/01) pelo instituto BVA aponta que 75% dos franceses aprovaram a decisão de Hollande – 82% entre os eleitores que se declaram de esquerda e 69% dos que se declaram de direita. No mesmo dia, o Ifop registrou aprovação de 63%.



A maior parte da classe política francesa, em um primeiro momento, também se manifestou favoravelmente à ação, como fizeram publicamente a UMP (União por um Movimento Popular), principal rival na oposição de direita; a Frente Nacional, de extrema-direita; e o centrista Movimento Democrático. A exceção entre as principais agremiações políticas ficou com o líder do Partido de Esquerda, Jean-Luc Mélenchon, considerou essa decisão “discutível” e condenou o fato de a ação não ter sido sequer discutida no Parlamento.



Os números e o apoio são bem diferentes das pesquisas de opinião em torno da aprovação do governo durante todo o mês de 2012. De acordo com o Ifop, Hollande fechou o ano com pífios 37% (4 pontos percentuais a menos que o levantamento de novembro), enquanto o primeiro-ministro Jean-Marc Ayrault foi ainda pior: 35% (queda de oito pontos). Resta saber como serão os primeiro resultados após a intervenção.



Pós-intervenção



Para Te-Lessia, a intervenção militar francesa não irá resolver a disputa política no Mali nem livrar a região do terrorismo. “O Mali tem um território vasto, a França não tem condições de vigiar e revistar todas as cidades e vilas. E os terroristas poderão se esconder na Líbia ou na Argélia. O problema não é esse, terroristas aparecem o tempo todo. O que se deve fazer é impedir que eles tenham acesso a a reservas, armas , bases, munição, abastecimento”, afirma. Ele lembra que também será preciso fazer com que os malineses reconstruam suas Forças Armadas. “Não puderam fazer antes nem durante a crise, veremos no futuro, em caso de vitória”.

Fonte: Opera Mundi.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Irã anuncia descoberta de urânio.


O Irã afirmou neste sábado que encontrou novas fontes de urânio bruto para abastecer seu programa nuclear e identificou locais para instalar 16 novas usinas nucleares, poucos dias antes do início de uma rodada de diálogo com as potências ocidentais sobre seu programa atômico.
AP
Principal instalação de enriquecimento de urânio do Irã é a de Natanz (foto de arquivo)

O relatório da Organização de Energia Atômica do Irã citado pela agência de notícias estatal Irna apontou que os depósitos foram descobertos em "áreas costeiras do sul" e que o urânio encontrado neles triplica o montante calculado em projeções anteriores.
Não havia nenhuma informação independente disponível para confirmar a informação, mas especialistas ocidentais haviam dito no passado acreditar que o Irã estava perto de esgotar seus estoques de urânio bruto.
Fontes diplomáticas disseram que os EUA e seus aliados - grupo chamado P5+1 - oferecerão um relaxamento nas sanções contra o Irã durante as conversações no Cazaquistão na terça-feira, se eles concordarem em limitar sua produção de urânio enriquecido.
O Ocidente acredita que essa produção demonstra as intenções do Irã de desenvolver armas nucleares, alegação que Teerã nega.
As reservas de urânio bruto no Irã eram de cerca de 4,4 mil toneladas, tendo em conta os resultados dos últimos 18 meses, segundo o relatório citado pela Irna.
Fonte: Último Segundo.

Programa Nuclear Iraniano.


O Irã começou a instalar centrífugas avançadas em sua principal usina de enriquecimento de urânio, informou a agência nuclear da Organização das Nações Unidas (ONU) nesta quinta-feira (21). Desafiadora, essa medida irritou as potências mundiais poucos dias antes da retomada de uma negociação com Teerã.
Em relatório confidencial, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) afirmou que 180 centrífugas do tipo IR-2m foram ligadas na usina, perto da cidade de Natanz, no centro do país. Elas ainda não foram acionadas.
AP
Principal instalação de enriquecimento de urânio do Irã é Natanz.

Se funcionarem corretamente, essas máquinas poderão permitir que o Irã acelere significativamente a construção do seu estoque de urânio enriquecido, um material que o Ocidente teme que possa ser usado no desenvolvimento de armas atômicas. Teerã insiste no caráter pacífico das suas atividades.
A chancelaria britânica disse que as conclusões da AIEA provocam "séria preocupação", e o governo de Israel declarou que o relatório "prova que o Irã continua a avançar rumo ao limite que o primeiro-ministro ( de Israel, Benjamin Netanyahu ) estipulou em setembro no seu discurso à ONU".
Na ocasião, Netanyahu declarou que o Irã estava próximo de acumular material suficiente para uma bomba atômica , mas que Israel não permitiria que esse ponto fosse atingido.
Enquanto isso, parlamentares dos Estados Unidos estão redigindo um projeto de lei destinado a impedir o Banco Central Europeu de fazer negócios com o governo iraniano, de modo a impossibilitar Teerã de usar euros para desenvolver seu programa nuclear.
O projeto, ainda em etapa preliminar de redação, teria como alvo o sistema de compensações internacionais do BCE, estabelecendo penalidades econômicas dos EUA contra entidades que usarem o Banco Central Europeu para fazer negócios com o governo iraniano, informou um assessor parlamentar nesta quinta sob condição de anonimato.
O assessor revelou a ideia antes de uma nova rodada de negociações, na terça-feira, em que grandes potências esperam convencer o governo iraniano a conter seu programa nuclear, que os EUA suspeitam servir de fachada para o desenvolvimento de armas atômicas.Não está claro quantas novas centrífugas o Irã planeja instalar em Natanz, onde cabem milhares dessas máquinas. Uma nota da AIEA aos Estados membros, no fim do mês passado, sugeria que podem ser até 3 mil, aproximadamente.
Há anos o Irã tenta desenvolver centrífugas mais eficientes que a errática IR-1, modelo dos anos 1970 atualmente em uso. A introdução do novo modelo para uma produção em grande escala sofre atrasos e dificuldades técnicas, segundo especialistas e diplomatas.
A instalação das novas centrífugas confirma a recusa iraniana em ceder à pressão ocidental para que restrinja seu programa nuclear e pode complicar ainda mais os esforços para resolver diplomaticamente a disputa, sem que ela resulte em uma nova guerra no Oriente Médio.
Fonte: Último Segundo.

    Batalha de Stalingrado.


    Há 70 anos em 31 de janeiro de 1943, o marechal Friedrich Von Paulus, comandante do VI Exército alemão, comunicava sua capitulação incondicional ao general Vassili Chuikov, comandante do Exército Vermelho em Stalingrado. Os remanescentes do exército alemão renderam-se em 2 de fevereiro; 91 mil homens, entre eles 22 generais.

    Estava encerrada a mais feroz, renhida e sangrenta batalha militar que a História da humanidade conheceu. A Batalha de Stalingrado quebrou a espinha dorsal da poderosa máquina de guerra nazista e do Terceiro Reich e provocou uma dramática guinada à Segunda Guerra Mundial.

























    Por causa dos soldados do Exército Vermelho, o mundo se livrou naquele momento do nazi-fascismo. Caso tivesse saído vitoriosa, a sombra da Alemanha nazista pairaria por muitas e muitas décadas sobre povos e nações, com todo o seu horror ideológico e racial.

    Por volta de setembro de 1942, a soma das conquistas de Adolf Hitler era estarrecedora. O Mediterrâneo havia se tornado praticamente um lago do Eixo, com a Alemanha e a Itália dominando a maior parte da costa setentrional, desde a Espanha até a Turquia e a costa meridional da Tunísia até cerca de 100 quilômetros distante do rio Nilo.

    As tropas da Wehrmacht mantinham guarda desde o cabo setentrional da Noruega, no Oceano Ártico, até o Egito; da ocidental Brest no Atlântico até a parte sul do rio Volga, às bordas da Ásia Central. Regimes fascistas pré-existentes e governos fantoches faziam o jogo do Reich nazista. França, Holanda, Bélgica, Dinamarca, Áustria, Hungria, Tchecoslováquia, Polônia, os Bálcãs, a Grécia e outras mais já haviam sido engolidas pelas Panzer Divisionen.

    Hitler parecia estar em situação confortável. Os submarinos alemães estavam afundando 700 mil toneladas por mês de barcos britânicos e norte-americanos no Oceano Atlântico, mais do que se poderia substituir nos estaleiros navais dos Estados Unidos, Canadá e Escócia, então em franco progresso. Além disso, as tropas nazistas do 6º Exército do marechal Friedrich von Paulus haviam alcançado o Volga, exatamente ao norte de Stalingrado em 23 de agosto.

    Dois dias antes, a suástica tinha sido hasteada no monte Elbruz, o ponto mais alto das montanhas do Cáucaso (5.642 metros). Os campos petrolíferos de Maikop, que produziam anualmente 2,5 milhões de toneladas de petróleo, haviam sido conquistados em 8 de agosto. No dia 25, os blindados do general Kleist chegaram a Mozdok, distante apenas 80 quilômetros do principal centro petrolífero soviético, nas imediações de Grozny e a cerca de 150 quilômetros do mar Cáspio.

    Stalingrado

    Então, em 31 de agosto, Hitler ordenou que o marechal-de-campo List, comandante dos exércitos do Cáucaso, reunisse todas as forças existentes para o assalto final a Grozny, a fim de se apoderar de todos os ricos campos petrolíferos da região. O líder alemão determinou que o 6º Exército e o 4º Exército Panzer se lançassem para o Norte, ao longo do Volga, cercando e sufocando Stalingrado, em um vasto movimento envolvente que lhe permitisse avançar de leste e de oeste contra o centro da Rússia, tomando, finalmente, Moscou.

    Ao almirante Raeder, no final de agosto, Hitler disse que a União Soviética "era um 'lebensraum' (espaço vital), à prova de bloqueio" o que lhe ensejava voltar-se para os ingleses e norte-americanos, que "seriam obrigados a discutir os termos da paz". Com essas conquistas vitais, o "Reich de mil anos" estaria garantindo sua subsistência e permanência. Isso porque teriam controle das vastas estepes da Ucrânia, ubérrimas, a fazer brotar um infindável celeiro dourado de trigais e os abundantes campos de ouro negro a besuntar de energia a máquina bélica e industrial alemã.

    Veja imagens da Batalha de Stalingrado:

    As imagens mais longínquas de minha meninice datam dessa época. Lembro-me de meu pai, cercado de amigos, debruçados sobre um mapa da Europa estendido sobre a mesa, lupa em punho, rádio em ondas curtas. Esta mesma cena provavelmente estaria se repetindo em milhões de outros lares pelo mundo afora. Anos mais tarde, meu pai, um jovem revolucionário imbuído de ideais socialistas, que no começo dos anos 1930 tinha abandonado a Polônia de governo pró-nazi e anti-semita para vir ao Brasil, relatava a agonia e o horror com que acompanhavam a expansão irrefreável do império nazista.

    Riscos do nazismo

    Quando os cabogramas anunciaram que a infantaria alemã havia atravessado o Don silencioso em direção a Stalingrado, o assombro se instalou. E se a Alemanha nazista derrotasse a União Soviética?

    A ideologia da supremacia racial ariana de Hitler se abateria sobre grande parte do mundo. Negros, eslavos, indígenas, árabes, mestiços, mulatos, amarelos, sub-raças e escória social, trabalhariam sob o tacão de ferro do nazismo, como semi-escravos, para a glória da raça superior. Povos inteiros, judeus, ciganos, seriam aniquilados em nome da limpeza étnica. Comunistas, socialistas e liberais seriam confinados em campos de concentração e de lá não sairiam vivos.

    O colonialismo na África e Ásia ganharia alento. As liberdades seriam espezinhadas e governos lacaios em todos os quadrantes se encarregariam de organizar gestapos em cujos porões um elenco monstruoso de torturas ao som da Deutschland Über Alles seria levado a cabo contra os inimigos do regime. As conquistas sociais dos trabalhadores estariam esmagadas. O progresso, as artes, as ciências sofreriam abalo.

    Além disso, Werner von Braun e seus assistentes em Penemunde teriam aperfeiçoando as mortíferas bombas voadoras de longo alcance com ogivas nucleares e outras máquinas bélicas de alta tecnologia a pender como espada de Dâmocles sobre qualquer país que ousasse desafiar o Reich alemão. E se alguma nação pretendesse enfrentar os interesses do Grande Império Germânico novas ondas de panzers ou de bombas V1 e V2 desencadeariam ‘blitzkriegs’ preventivas para aniquilar pelo terror qualquer tentativa.

    Wikicommons
    Assim, quando o jovem general Konstantin Rokossovsky (foto à esquerda), levando a cabo as instruções táticas da Operação Uranus ordenadas diretamente de Moscou e arquitetadas pelos generais Alexander Vasilievsky e Vasily Volsky, conseguiu romper, em 19 de novembro, o anel de aço que cercava Stalingrado, a esperança reacendeu.

    No entanto, a cidade estava sitiada, os seguidos bombardeios da Luftwaffe haviam-na reduzido a escombros. Dia após dia o cerco se apertava.

    No final de novembro, a zona urbana foi invadida e veio a ordem terminante: defender a todo custo as fábricas Outubro Vermelho e Barricadas, que produziam os carros de assalto, a Fábrica de Tratores que construía os blindados T-34 e a estação ferroviária central onde as matérias primas eram desembarcadas.

    A Batalha

    Iniciou-se então a mais feroz, a mais encarniçada, a mais renhida e sangrenta, a mais dramática das batalhas militares que a História da humanidade conheceu.

    O terreno coberto de destroços impedia qualquer ação de blindados e a proximidade dos contendores tornava impraticável a cobertura aérea. Só restava calar baionetas e passar a travar a luta.

    Casa a casa, corpo a corpo, em cada centímetro de chão a luta se dava. Para ilustrar a tenacidade com que se combatia, basta lembrar que a plataforma semidestruída da estação de trens mudou de mãos sete vezes em um único dia. Os operários da Outubro Vermelho empunharam armas e estabeleceram uma muralha de fogo em torno da fábrica. Jamais se havia visto tantas cenas de heroísmo, bravura e coragem, de lado a lado, naquele cenário lúgubre das ruínas da cidade. Nunca antes soldados haviam lutado com tanto denodo para conquistar e defender.

    Em 30 de janeiro de 1943, décimo aniversário da subida de Hitler ao poder, o führer fazia uma solene proclamação pelo rádio: "Daqui a mil anos, os alemães falarão sobre a Batalha de Stalingrado com reverência e respeito, e se lembrarão que a despeito de tudo, a vitória final da Alemanha foi ali decidida".

    Veja imagens feitas durante discurso de Hitler em 1943:

    Três dias depois, em 2 de fevereiro, o marechal-de-campo Von Paulus assinava diante do general Vassili Chuikov, comandante das tropas do Exército Vermelho em Stalingrado, a rendição do 6º Exército alemão.

    A transmissão da capitulação foi feita em Berlim, através da rádio alemã, pelo general Zeitzler, chefe do Alto Comando da Wehrmacht (OKW) precedida do rufar abafado de tambores e da execução do segundo movimento da Quinta Sinfonia de Beethoven.

    A maior e a mais épica das batalhas da 2ª Guerra Mundial que tivera início em 26 de junho havia chegado ao fim. Foram feitos prisioneiros pelos soviéticos 94,5 mil soldados alemães dos quais 2,5 mil oficiais, 24 generais e o próprio marechal Von Paulus. Foram mortos cerca de 140 mil soldados da Wehrmacht e 200 mil homens do Exército Vermelho. Os soviéticos tomaram do exército inimigo 60 mil veículos, 1,5 mil blindados e seis mil canhões. A espinha dorsal do exército nazista e do Terceiro Reich estava irremediavelmente quebrada.

    Celebração

    Os mesmos milhões de lares que tinham vivido momentos de apreensão e pavor explodiram de emoção. Hitler havia mordido o pó da derrota. Corações e mentes voltaram-se para glorificar os heróis combatentes do Exército Vermelho e honrar os que tombaram no campo de batalha pela liberdade.

    A admiração pela extraordinária façanha impunha a pergunta: o que levou aquele contingente de centenas de milhares de jovens a lutar com tal fúria e obstinação? Certamente, além do apelo da Grande Guerra Patriótica, por livrar o solo pátrio do invasor, havia outro ingrediente.

    A leitura das lancinantes cartas aos familiares escritas no front deixava evidente a determinação de defender as conquistas da Revolução de Outubro, por cuja consolidação seus pais, 25 anos antes, haviam derramado sangue enfrentando e derrotando o exército branco e tropas invasoras de catorze 14 países mobilizados para sufocar no nascedouro a revolução bolchevique.

    Logo após a vitória em Stalingrado, o Exército Vermelho arrancou impetuoso rumo à capital do Reich nazista, abrindo em sua passagem os portões macabros de Auschwitz-Birkenau. As tropas anglo-americanas desembarcam na Normandia em 6 de junho de 1944. No dia 2 de maio de 1945, soldados do destacamento avançado do general Ivan Koniev hasteiam a bandeira soviética no mastro principal do Reichstag.

    Cinco dias depois, numa pequena escola de tijolos vermelhos em Reims, França, na madrugada de 8 de maio de 1945, o almirante Friedeburg e o general Jodl assinam, em nome do que restou da máquina de guerra nazista, diante do general Ivan Susloparov pela União Soviética, e do general Walter Bedell Smith pelos aliados, a rendição incondicional. Os canhões cessaram de troar e as bombas deixaram de cair. Um estranho silêncio pairou sobre o continente europeu pela primeira vez desde 1º de setembro de 1939. O mundo estava livre da sanha nazi-fascista.

    Fonte: Opera Mundi.

    Socialismo soviético não é apenas o passado, mas o futuro da Rússia.


    Sob a polêmica liderança de Guenadi Zyuganov, comunistas aumentaram sua presença na Duma


    “Um partido jovem, moderno, forte, com uma equipe enérgica e excelente programa”. Foi dessa maneira que o líder do Partido Comunista da Federação Russa (KPRF, na sigla em russo), Guenadi Zyuganov, definiu o partido, que acaba de completar 20 anos.

    O Partido Comunista russo foi fundado em 1993, dois anos depois da proibição do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), por Bóris Iéltsin. Zyuganov trabalhou no departamento ideológico do PCUS e, desde 1993, é o líder do KPRF.

    “Naquela época, estavam todos com as ideias muito confusas. Juntei algumas pessoas na cozinha e disse que o ideal vermelho permaneceria. O ideal de justiça, amizade e fraternidade entre os povos”, contou Zyuganov em uma coletiva de imprensa na semana passada, em Moscou.

    Nas últimas eleições legislativas, em dezembro de 2011, os comunistas conseguiram 20,44% de representatividade na Duma (câmara baixa da Assembleia Federal da Rússia), fortalecendo-se como a principal força de oposição do país, com 92 deputados de um total de 450. Em 2007, o KPRF conseguiu eleger somente 57 deputados, tendo atingido o seu auge em 1995, com 157 representantes (34,9%).

    Os números, no entanto, não podem ser encarados como uma real aproximação dos russos ao Partido Comunista, mas como resultado da perda de credibilidade dos governistas do Rússia Unida. O partido, que apoia o presidente Vladimir Putin, terminou a jornada eleitoral com 238 deputados (contra 315 em 2007).

    “O voto no partido de Zyuganov nas eleições presidenciais e nas legislativas foi um voto contra Putin. 20% dos russos escolheram votar nos comunistas, mas mais da metade não conhece o programa, nem a ideologia do Partido Comunista”, explica o analista político Vladimir Orlov.

    O direcionamento ideológico do Partido Comunista russo vem sendo alvo de críticas de setores mais à esquerda do próprio partido, que alegam que a liderança de Zyuganov levou o KPRF para uma ideia que se aproxima mais do nacionalismo-patriótico do que da ideologia marxista-leninista.

    “Os velhos comunistas acham que o partido tomou uma linha muito moderada, assimilando o capitalismo. Mas na verdade, talvez seja uma boa estratégia", analisa Orlov.

    Por cautela, o programa do Partido Comunista da Federação Russa evita fazer referência à “revolução”. "Falar a palavra ‘revolução’ com os russos é um grande risco. As pessoas têm medo. Durante as manifestações anti-Putin no ano passado, sempre que algum líder mais exaltado ia ao palco e falava ‘revolução’, a maioria das pessoas se calava e não o apoiava”, conclui o analista.

    Os comunistas russos acreditam que a disputa fundamental entre capitalismo e socialismo não está completa e que a inatividade do movimento revolucionário é algo temporário. Segundo o KPRF, “a era moderna é a transição do capitalismo para o socialismo”.

    O programa do Partido Comunista diz ainda que vivemos em uma época em que “a produção material e espiritual está sujeita às regras do mercado para maximizar o lucro e a acumulação de capital”, através da “exploração dos recursos humanos e naturais, com consequências devastadoras para futuras gerações e para o meio-ambiente”.

    "O fundamental do discurso não mudou. Foram apenas feitas adaptações ao contexto do momento. Tem gente que acha que o Partido Comunista nem poderia ter página na internet", explica Sergey Oreshkin, líder juvenil do KPRF. "São novos tempos e um novo modelo de sociedade. Mas a nossa ideologia básica é a mesma".

    A doutrina oficial do partido afirma ainda que o imperialismo é a última etapa do capitalismo, "confirmando a teoria de Lênin". O primeiro artigo do programa político do KPRF diz que “depois do fim da União Soviética, a restauração do capitalismo na ex-URSS representa a política de globalização imperialista dos Estados Unidos e dos seus aliados”, que para atingir seus objetivos estão “ativamente usando blocos político-militares e recorrendo a hostilidades abertas”.

    A ala à esquerda do partido não vê com bons olhos o discurso oficial. “Há uma tendência burguesa no KPRF. Zyuganov já disse que propriedades privadas são completamente aceitáveis. Estamos acomodados e mudando a nossa ideologia, a nossa base, os nossos princípios”, conta Dmitry, um "velho comunista que ama o camarada Lênin".

    Avesso às críticas, o líder Zyuganov reforça o discurso de atrelamento do atual partido comunista ao seu passado soviético. “O socialismo soviético não é apenas o passado, mas o futuro da Rússia”. Para Zyuganov, a política na Rússia deve estar baseada em quatro princípios - poder forte, coletivismo, espiritualidade e justiça.

    Patriotismo

    O Partido Comunista russo criou em dezembro do ano passado um novo movimento patriótico chamado “Ordem Russa”, que tem como objetivo “unir as pessoas e preservar a civilização russa”. O grupo já que agrega 300 organizações “patrióticas e religiosas”, bem como artistas e legisladores.

    Zyuganov declarou a jornalistas que a civilização russa tem sido uma das “mais brilhantes” invenções locais, com 190 povos diferentes, cada um com sua língua e cultura.

    A preservação da identidade da Rússia em meio à globalização é um dos objetivos centrais da Ordem Russa, que considera o idioma “a base da unidade e da criatividade no país”.

    O discurso anti-EUA também é cada vez mais popular e trabalha em consonância com o discurso do partido majoritário, Rússia Unida. A ameaça externa e o perigo da influência ocidental (mais especificamente norte-americana) fazem parte da criação identitária e imaginária tanto do partido do Putin como dos comunistas.

    Divulgação
    Discurso crítico aos EUA é um dos poucos pontos que aproximam os comunistas de Putin

    “Eles se definem como internacionalistas, mas têm um discurso nacionalista, de patriotismo de Estado. É contraditório”, criticou Yuri Shuvalov, alto funcionário do partido governista.

    Homofobia

    O partido tem se posicionado sistematicamente a favor da criminalização da homossuxualidade. Em 2006, membros da KPRF atacaram violentamente participantes de uma parada do orgulho gay em Moscou. O ataque foi criticado por diversas associações internacionais, incluindo o próprio Partido Comunista Francês (PCF), que classificou o ato como “vergonhoso”.

    Em resposta à critica do PCF, o secretário de imprensa de Zyuganov, Alexander Yushenko, disse que “os comunistas franceses podem apoiar quem eles quiserem na França – homossexuais ou masturbadores”. Zyuganov, por sua vez, afirmou que a parada gay em Moscou é algo “doentio” e que “contradiz os valores morais russos”.

    No início de 2012, Zyuganov atacou as políticas sociais da Rússia, apontando a “decadência moral” como a culpa das altas taxas de suicídio (especialmente entre crianças e idosos) e do número de abortos no país.

    Sombra de Stalin

    A afinidade do partido com Stalin, líder cuja memória divide a população russa, continua sendo uma das críticas mais recorrentes contra o KPRF, classificado pelo pesquisador britânico Luke March como um “conservadorismo militante”.

    O partido reconhece Stalin como um líder bolchevique exitoso e como a cabeça responsável pela vitória da Rússia na Segunda Guerra Mundial, contra a Alemanha nazista. O período entre 1941 e 1945, que marca a participação da Rússia na guerra, é conhecido no país como a Grande Guerra Patriótica.

    Em 2010, Zyuganov chegou a declarar que “qualquer estabilidade do governo de Medvedev e Putin é resultado do trabalho de Stalin”. O líder comunista disse ainda que Stalin é “um grande homem de Estado que criou um país onde a classe trabalhadora se sente confiante”.

    Fonte: Opera Mundi.